Arquivo da categoria: Pessoal

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TU ÉS MAIS FORTE

“Tu és mais forte e sei que no fim vais vencer; sim acredita num novo amanhecer”: é esta a música que toca na minha cabeça nos dias difíceis como o de hoje. Não tive um dia fácil pois percebi que a minha vida profissional vai ter mudanças com as quais eu não estava a contar. Foi um dia pesado e denso; um turbilhão de emoções que foram vividas de forma efervescente.

Questiono-me no final do meu dia sobre a quantidade de pessoas que, como eu, tiveram um dia difícil; para ser sincero: nem me apetecia sentar-me para vos escrever. Mas esta força que me direciona rumo aos meus sonhos é mais intensa, é maior. Por isso, é com alegria que deito as minhas palavras nesta cama elétrica que nos aproxima inexoravelmente.

São nos dias difíceis que nascem os verdadeiros verões. O Inverno e os seus mantos brancos existem para deixar as aromáticas flores desabrochar; a tempestade de gelo existe para que as rosas sorriam no seu vermelho sanguíneo. Os dias difíceis têm que ser os nossos momentos de força. Tu és mais forte e, no fim, vais vencer. Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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UMA TEMPESTADE COM PELE

Afundo-me no mar como os sedimentos de uma vida que pesa; uma existência sofrida que encontra o seu conforto na cálida textura das rochas vulcânicas. Tenho sofrido: não por culpa de um destino; antes por uma necessidade de expressão que não encontra terra firme para deixar o seu legado. Sofro porque as circunstâncias da vida se impõe a uma vontade maior.

Mas eu luto, não baixo os braços. Sou um guerreiro que nunca se cansa da sua labuta – tudo na vida tem uma razão para existir. O meu humor muda e encontra tantas faces como as da Lua – que na noite radia o céu com os seus cristais de esperança -, mas em todas as mudanças encontro um sorriso desenhado; que brilha com a sua brancura no negro petróleo.

Sou uma tempestade, uma tempestade com pele: não viro a cara a um desafio, não tenho medo de enfrentar os meus profundos fantasmas que se têm mostrado a nu nos dias que passam; não tenho medo de cair (o Homem cai para depois se levantar!). A depressão não sabe com quem se meteu. Acredita que nasceste para ser mais uma estrela no céu! Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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PEQUENOS PASSOS

A tristeza continua a tingir os meus dias prometendo a chuva ácida que é promessa num céu cheio de nuvens – cinzentas! Ela bate forte. Ela continua a manifestar-se num cenário em que os sonhos se encontram desvanecidos por um tempo, também ele cinzento. A depressão é viver numa cela em que as tintas das paredes são negras, da cor do petróleo.

Ela segue pela calada da noite e faz-se presente num tempo que, por ido, deixa saudades.  Um tempo em que brota uma falta de emoção generalizada; um tempo que não se dirige para porta nenhuma. A dor é a certeza: um flagelo que queima na garganta e irrompe pelo silêncio da madrugada para se fazer presente nas palavras não ditas, não expressas.

Fico numa casa em que a porta está escancarada mas em que o ar não passa (não existe vida!); o ar não circula e mancha os meus dias cheios de indecência por não se cumprir uma vontade maior. Os dias passam e com eles passam a vida que não volta. Será que viverei para sempre nesta condição? Liberta-te dos teus fantasmas. Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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VENCENDO A BATALHA

Esta semana não tem sido fácil. Estou a lidar com a sintomatologia pós surto psicótico. Tenho me sentido deprimido e sem vontade de fazer nada. As actividades que normalmente me dão prazer revelam-se um enfado e sou atirado para uma crise existencial em que me questiono sobre a razão da minha própria existência.

Os pensamentos negativos têm manchado os meus dias com a sua energia negra e deixam um cheiro nauseabundo nos recônditos da minha mente consciente. É fácil pensar no meu insucesso profissional; quando isto acontece, muitas vezes, não consigo superiorizar-me à negatividade que escorre vertiginosamente pelo meu entendimento – é difícil manter-me positivo!

O meu truque nestes dias mais cinzentos tem sido sair de casa. Hoje, por exemplo, não me apetecia sair da cama para concretizar os meus compromissos. A batalha foi dura mas consegui, por fim, impor a minha vontade e agora escrevo-vos de um café em Alvalade. Os dias não vão ser sempre fáceis, mas não permitiremos que nos assaltem o sorriso. Está tudo em Ti!

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NEGRITUDE E ALGODÃO

Os corpos transpirados transportam o algodão para a casa dos senhorios onde serão flagelados pela fome e corrompidos pela desgraça e falta de humanidade. O branco das fibras é manchado pelo sangue que jorra da carne cansada e destruída pelo trabalho escravo. A luta pela vida é diária assim como o é o desrespeito pelos direitos humanos.

É neste cenário que os meus antepassados foram agredidos, violados e mortos. As feridas da Escravatura encontram-se abertas na minha dimensão humana e o sangue – quente – de que delas escorre é evidência de alguém que é agredido pelo seu passado. (Meu Deus: Batiza-me; renova em mim a promessa de uma vida livre e generosa – abençoada!).

A Educação é o perdão de que todos os negros necessitam, mas muitas vezes revela-se insuficiente quando nos beijam na boca e nos cospem para o interior de uma abertura que se vê silenciada pela dor. Ainda choro todas as chicotadas que levei e me fustigaram o corpo. Que a Educação seja o bálsamo de todas as feridas. Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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A ENERGIA ELÉTRICA

Se ando nas nuvens não é culpa minha,

É uma necessidade que se manifesta.

Se nado no mar não é culpa minha,

É um incremento à minha essência;

No qual se cruza com a decência.

Se falo do ar são os átomos que criam

Raízes em mim – é inevitável existência.

Se falo da terra é porque as suas plantas

Se infundem em mim nesta cadência

É nesta amizade que floresce a inocência.

CARTER B. REY

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UMA OPORTUNIDADE CAÍDA DO CÉU

Caíste do céu numa manhã em que o dia se fazia frio,

Caíste do céu num dia em que nada esperava.

Trouxeste a esperança de uma oportunidade muito desejada,

Trouxeste a esperança de uma infância iluminada.

Esperei por ti toda a vida e nada me arredou o pé,

Esperei por ti com alento e desejo desafogado.

Contigo sonhei uma vida – uma eternidade.

Contigo sonhei e furei a efemeridade.

Caíste do céu numa tarde soalheira,

Caíste do céu numa noite estrelada.

Contigo sonhei numa semana de paixão.

Contigo sonhei com a frescura do coração.

CARTER B. REY


Fotógrafo: Tomás Monteiro

Assistente de Fotografia: Irís Liliana

Make-up: Ani Toledo

Cabelo: Rui Rocha

Styling: Carter B. Rey

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VOZES NA MINHA CABEÇA

Vocês perseguem-me na torrente da noite.

Dizem que tudo é possível. Nessa possibilidade

Conduzem-me à loucura e à fragilidade de existir.

A noite é sempre má conselheira.

Se a noite é das putas, dos poetas e dos loucos

Então eu, em mim, conjugo esses três cenários;

Numa só existência e fragilidade.

A puta celebra a Filosofia da liberdade humana.

O poeta rasga a novidade com a carícia de uma caneta.

O louco viaja no devaneio de uma dissertação sensível.

Eu: sou a composição de uma leitura de fragmentação.

Não sei o que escrevo. A única certeza que tenho é sobre a vossa existência.

Vocês confundem-me e atiram-me para o abismo onde existe um vórtice existencial –

Que me prende numa cela sem porta e numa parede branca e poderosa.

Deixo-me levar por esta proposta – Eu sou o Deus do Universo.

CARTER B. REY

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A PALAVRA DA SABEDORIA

A palavra é sagrada – deve ser respeitada.

A palavra é Conhecimento – deve ser enaltecida.

A palavra é Alegria – deve ser celebrada.

 

A palavra é um jogo de xadrez em que não existe nem rei nem rainha.

A palavra é um jogo de damas em que não existem peças a serem jogadas.

A palavra é o Cristo Redentor: é Amor, é Caridade, é Paixão.

 

A palavra foi trazida por um povo de muito longe que a desejou.

Comunicamos através da palavra. A palavra é ancestral.

O demagogo que a converte em dinheiro deve ser renegado,

Pois ofende uma tradição, ofende uma cultura.

 

Com fúria e fogo celebro os discursos que mudaram o rumo da História –

Que sem rumo caminha desafogada de mágoas.

Com fúria e fogo celebro os Homens e Mulheres que transformam a palavra,

Que a ressuscitam e a convertem em pontes de diálogo e comunicação.

 

CARTER B. REY

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GLÓRIA DA CIDADE NATAL

Necessito do meu bairro para existir: é aqui que está alocada a minha força. O meu bairro para mim é o princípio e o fim de todas as coisas. É o começo de um lindo sonho, o cemitério onde se destroem vidas. São estas construções assimétricas com defeitos de construção que me abraçam todos os dias e me ensinam a ser uma pessoa mais bondosa.

O bairro é onde está a minha essência e é de onde tudo nasceu; os meus sonhos construíram-se nestas ruas onde jazem corpos que, num fingimento de vida, se julgam na propriedade do dom de Deus. Muitas vezes, viver no bairro acarreta esta condição, a vida por vezes é demasiado áspera e austera para se conseguir vivê-la com um contentamento.

Mas para mim, não existe lugar no mundo onde me sinta mais completo, não existe lugar no mundo onde me sinta mais conectado com a realidade que me rodeia divido à simplicidade do povo que aqui se faz viver. O bairro é o meu estado de consciência porque me ensina a ser feliz. Qual é o local no planeta onde te encontras? Está tudo em Ti!

CARTER B REY


Fotógrafo: Tomás Monteiro

Assistente de Fotografia: Irís Liliana

Make-up: Ani Toledo

Cabelo: Rui Rocha

Styling: Carter B. Rey

Trend me too | Days of Light and Fights | Imagens do Ginásio

SUOR – O SINAL DE TRANSPARÊNCIA

Tenho saudades de fazer judo! Devido ao surto psicótico que tive em Setembro, estou afastado dos treinos para que o meu cérebro possa recuperar e restabelecer. O que tenho mais saudades é do cansaço que o treino proporciona: aquele cansaço de sentir o corpo contraído numa expressão física de dor; aquele cansaço em que as noites se tornam mais longas e pesadas porque os músculos não relaxam… aquele cansaço de quando estamos demasiados envolvidos ainda no treino que, apesar de ter acabado, se torna presente pelas endorfinas e adrenalina que fazem da corrente sanguínea pistas de fórmula 1, deixando-nos com uma excitação e energia capazes de correr até ao final do Universo, onde Deus está presente e preenche o vazio que aí se manifesta. Tenho saudades de tudo isto porque está naturalmente em mim – o meu corpo está impregnado (imersão total!) – de uma ambição competitiva que me compraz e me atira para uma melhor versão: o melhor de mim está para chegar! É nesta cama de esperança que os meus sonhos adormecem e se contagiam de energia positiva: o Universo – Deus todo poderoso – ouvirá os meus desejos.

“APRECIO O RITMO A QUE O MEU CORPO GOTEJA CADA LÁGRIMA DE ÁGUA QUE SE AMPLIA EM TODAS AS LATITUDES DO MEU HUMANISMO.”

Tenho saudades do suor que me escorria pelo corpo e me deixava molhado, ficava encharcado do meu trabalho. Tenho saudades do suor que me escorria pelo meu entendimento sensível, concebível, e que pintava no horizonte palpável – tangível – as minhas medalhas e os combates vencidos – as competições são ganhas no treino! Tenho saudades do suor que me percorria a carne sendo a evidência visível das perturbações e dúvidas que escorriam ansiosas no deleite da sua natureza aquosa. O suor é transparência, o suor é sinceridade. No Judo combatemos descalços uma vez que o calçado poderia trazer divisão entre os seus praticantes. Assim, estabelece-se um manifesto que fecunda a diversidade multicultural e fomenta a união entre os atletas de Judo. O suor participa com a mesma prevalência. Ele é a entrega e devoção; certeza de um compromisso, incerteza de um devaneio. O suor é a prova sensorial – a expressão de uma imposição física e biológica. Aprecio o ritmo a que o meu corpo goteja cada lágrima de água que se amplia em todas as latitudes da meu Humanismo. Suar é o trabalho de se existir. Como encaras o suor que te escorre pela fronte? Está tudo em ti!

CARTER B. REY


Fotógrafo: Fábio Caetano

Make-up: Ani Toledo

Styling: Carter B. Rey

Coordenação: Marta F. Cardoso

Carter B. Rey

GRANDEZA

Todos temos sonhos e aspirações; temos vontades e desejos ansiosos por se realizar. Somos iguais porque almejamos os mesmos objetivos. Temos uma ânsia que não se cala, uma voz que queima na garganta: temos sede de sucesso. E em que queremos ser bem-sucedidos? O ser humano quer ser bem-sucedido no Amor; queremos amar mais e melhor, queremos viver apaixonados pela vida. Quando falta o Amor, somos o pescador – cuja embarcação rasga a torrente da madrugada – que desesperadamente procura orientação perante a escuridão que se impõe. Quando o Amor é negligenciado comparece o Crime, quando o Amor não se faz presente, emerge a Violência; quando o Amor é ausente, irrompe o Pecado. Quando o Amor não se materializa, incrementa-se a Morte.

Eu sei o que é viver sem Amor. Quando no meu Entendimento se deixou de alimentar do Amor que dá Vida, tentei matar-me. Duas vezes. Desejei a Morte tanto quanto os meus pulmões anseiam por uma corrente de ar fresco. Tudo aconteceu durante os onze meses que estive deprimido – período em que senti um enorme desprezo pela dádiva e dom maiores de Deus: o Verbo que se faz presente na carne e que dá Fecundidade às partículas atómicas; esta natureza maior cuja profundidade, altura e comprimento habitam o Mistério que se faz presente pelo Espírito Santo. Tentei matar-me porque no meu coração não estava presente esta grandeza de Amor Maior.

“DEIXA A TUA AMBIÇÃO DE GRANDEZA SER O MAR DO TEU ESPÍRITO E O CÉU DA TUA ALMA – TUDO EM AZUL.”

O sucesso é o Amor. Sonhar é amar uma vida que se apropria e se compraz na novidade. Ser vencedor é amar! Cada vez que beijamos a face de alguém, é a nós mesmos que nos beijamos; quando sentimos um abraço apertado, o Universo exprime-se em nós através da energia – consequentemente, o nosso cérebro é inundado por dopamina que nos enamora as redes neurais. Ser-se grande é deixar que a vontade de Deus se cumpra em nós.

Deixa a tua ambição de Grandeza ser o mar do teu espírito e o céu da tua alma – tudo em azul. “Tal como as casas têm fachadas [nós temos] este modo de ser”. Todos nascemos para sermos Campeões do Amor. O Amor é a medida de todas as coisas. Aceitas o desafio?

CARTER B. REY

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SOU LOUCO E GOSTO

“Tu és estranho.”

Esta é a afirmação que é quase um segundo nome para um homem que sempre sentiu o mundo de forma exacerbada, apaixonada – eu. Desde cedo na minha vida que tenho dificuldade em fazer-me entender pelos outros, por isso, sempre fui tido como diferente: estranho. Esta forma como fui categorizado distanciou-me da realidade porque esta proporcionava-me um sofrimento extremo pela inexistência de compreensão. Esta atitude fez com que me segmentasse, com que ocultasse partes de mim que de forma alguma queria ver desnudadas.

Tudo o Universo é ação e reação; perante a negligência do meu eu o meu subconsciente enleou-me num mar de sargaço, fiquei preso em mim mesmo. Por mendigar o brilho no olhar dos outros, agredi-me violentamente; tinha vergonha da capacidade mais maravilhosa e extraordinária que Deus me entregou e confiou como talento: pensar. Sempre tive pudor de me afirmar socialmente como um ser que tem uma forte tendência para a racionalização porque a inteligência também pode ser uma agressora para os espíritos agrilhoados à realidade sensitiva.

“SER LOUCO É UM CAMINHO DE LIBERDADE: LIBERTA-TE!”

Mas agora tudo é diferente. Depois da depressão, depois de duas tentativas de suicídio, depois de dois surtos psicóticos (tendo sido o primeiro depois dos Jogos Olímpicos e o segundo acerca de dois meses); depois de tudo isto, do sofrimento, ficou uma tremenda capacidade de aceitação da pessoa que eu sou. Aceito a minha doença mental. Aceito a minha loucura!

Ser louco é um caminho de liberdade: liberta-te! Liberta-te dos estereótipos que apenas condenam; liberta-te das falsas verdade. Ser estranho é um privilégio de quem tem a coragem de observar o mundo por uma ótica alternativa. Ser estranho é um privilégio de alguém que ousa pensar e, por isso, é criticado gratuitamente.

CARTER B. REY

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SER OU NÃO SER: EIS A QUESTÃO…

“A educação e o ensino são as mais poderosas armas que podes usar para mudar o mundo.”

Nelson Mandela

Ser aluno universitário é para mim a concretização de um sonho. Foi um percurso sinuoso, com anos de paragens… Contudo, este ano abraço essa missão com responsabilidade e compromisso. Estou a estudar Psicologia no ISCTE e tem sido uma experiência fantástica. É numa universidade cheia de vida e diversidade cultural que começo a aprender os conceitos chave de uma disciplina que, através de modelos teóricos, pretende estudar o comportamento humano. Penso que a Psicologia contribui para uma melhoria dos mais diversos contextos e ambientes pois através de um melhor auto-conhecimento conseguimos uma interação mais eficiente e positiva com os pares que nos rodeiam.

Estou num momento da minha vida com várias alterações e, por isso, sinto necessidade de olhar para trás e ver tudo o que aconteceu: colocar em perspetiva. Relativamente ao meu percurso académico, lembro-me – com alguma nostalgia – do meu primeiro dia de aulas de sempre. O meu pai foi-me levar à escola no carro branco que tinha na altura e recordo-me de ficar parado nas escadas dentro do edifício cheio de medo. A minha escola primária chamava-se Escola Branca do Monte da Caparica e foi um dos momentos definitórios da minha vida pois foi aqui que comecei a construir o meu percurso. A exigência da minha mãe quanto às notas associada ao espírito de competição para ser um dos melhores alunos na classe fizeram com que encarasse sempre os estudos com seriedade. Parece que foi ainda ontem que era apenas um infante (cheio de sonhos e ambições); nesse tempo afirmava determinadamente que queria ser médico – mal sabia que a vida me iria trocar as voltas.

As mudanças são sempre positivas porque ensinam-nos sempre algo sobre nós próprios que não sabíamos e que estava mesmo ali à nossa espera – para ser descoberto. Sem estas pequenas alterações no nosso percurso, não seria possível crescermos e aprendermos que nada pode ser tomado ou dado por garantido. Muitas vezes quando damos a vida como uma comodidade acontece algo que nos puxa o tapete e aí somos lembrados da nossa pequenez – não controlamos nada verdadeiramente. É, por isso, que nos devemos esforçar mais e tentar mais forte porque em qualquer momento vamos ser lembrados de que não somos omnipotentes.


Chapéu & T-shirt: H&M


Contacto: geral@celiodias.pt

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UM ENCANTO DE JAPÃO

Com a clarividência que me proporciona o “Argonauta das sensações verdadeiras”, ao ritmo das minhas (quem me dera que fossem!) kizombas quentes, descubro a riqueza nipónica de uma vida de Japão. Assim vamos os três: o poeta, uma versão que não é a minha e África (com uns olhos de mel, tristes mas contentes, e uma certa e característica ginga na cintura)… Aliás, vamos os quatro! Ou melhor: vamos, contando bem, os cinco! (Lá escorreguei eu nos números e na exactidão!)

Adoro o cheio da densidade populacional e do katsu kare. E vocês comparsas?

“A beleza destes olhos meios rasgados enche-me a alma! Não, o que me enche a alma não é a beleza dos olhos rasgados… Aliás, estes olhos não são belos. Nem estes, nem nenhuns, nem coisa alguma! Comovem-me apenas estes olhos nipónicos que não são rasgados e muito menos nipónicos. Na verdade, estes olhos são nipónicos: para ti e para as mentes dementes; para mim: são olhos. Tal como as árvores são árvores, as flores são flores e os filósofos tristes e estúpidos. Desculpa: o vento que se levantou fez com que algum desse pó, que cega e racionaliza, entrasse para os olhos – os meus.”

(Silêncio, luzes e mais pessoas. Oiço um ligeiro mixoxo, uma testa franzida.)

“Sabes muito bem que esse vento não me bate! Não me cega, mas queima. Cada árvore, cada rio; os elefantes e os leões… Tudo geme e grita e rosna com o frio desta banda. A terra quer-se enterrar para fugir a este briol! Não estou a curtir esse mambo não…”

(Outro mixoxo, mais vento e frio. O poeta revira olhos devido à falta de eloquência; África lança-lhe um olhar de soslaio.)

E eu riu-me com todos os dentes da boca (mais tive!) E a fisiologia da não filosofia aquece-se e namora com a africanidade! Amo o poeta, vibro com África e finjo que não vejo com olhos doentes – encantado! Meu, nosso, teu – talvez não seja de ninguém: Japão.

O velho samurai resmunga e os olhos curiosos lêem e interpretam. (Vá, eu não conto ao Mestre para lhes poupar a leitura de mais um poema, claro e simples. Não, na verdade vou-lhe contar; com sorte, ele escreve dois poemas. Um para os olhos que lêem e outro para mim, advogando neles um luar que é só luar. E eu vou-me deliciar, ouvir mais música e descobrir mais Japão – em Tóquio).

Célio Dias

POR TERRAS DE PETER PAN

ESTÍMULOS

“Mamã: Porque é que as sandálias estão a escorregar menos que as sapatilhas?”

Gabriel

Ocasionalmente, costumo encontrar-me com a minha professora de Filosofia – Joana Rigato: uma mulher alta, com cabelos muito lisos; uns olhos verdes – contagiantes – que deixam transparecer o fervor de alma que anima cada palavra do seu discurso. Conhecemo-nos no Colégio São João de Brito (instituição que me ofereceu uma bolsa de estudos no Ensino Secundário!) e a minha paixão pelas suas aulas foi inevitável: cada lição foi uma aprendizagem, uma oportunidade de questionar e construir um novo castelo de dogmas e preconceitos – uma arte minha, não imposta por cabeças alheias! Inesquecíveis são os debates sobre o livre-arbítrio; todas as aulas levávamos novos argumentos e teorias para debatermos para, passados uns minutos, não passarem de estilhaços no chão – frustração. Várias foram as vezes de que abandonei a sala derrotado e até infeliz pois compreendi (Talvez!) o magnitude e o impacto de uma vivência em que se está sempre a fazer perguntas e a tentar perceber a realidade – seja lá o que isso for! (O importante não é chegar, mas sim partir. Não era o que dizia Miguel Torga?)

Num desses encontros, reunimo-nos para discutir um livro que se chama “What Money Can Buy?” de um filósofo americano, Michael Sandel, pois estava impressionado (ingenuamente!) com as implicações e consequências do capitalismo no mundo atual; percebi que realmente tudo, mesmo tudo, é vendível: nova crise existencial (Esta é a razão pela qual não leio, admito que por cobardia, mais livros de filosofia Às vezes, uma reflexão pode ser simplesmente avassaladora e transformante. Nem sempre consigo manter a estabilidade emocional quando opto por este tipo de literatura) Fomos para perto de um jardim perto da casa da minha professora, com os seus filhos, o Gabriel e a Clara, e começámos a debater o que tinha lido. Passado algum tempo, e porque os seus filhos nos acompanhavam, a professora começou a explicar-me parte da educação que dá aos seus filhos: “Para mim é importante satisfazer a curiosidade os meninos. Nem sempre é fácil pois fazem muitas perguntas. No outro dia, a Clarinha começou-me a perguntar para que servia a anestesia e eu acabei por lhe explicar o funcionamento dos neurónios e sinapses!” – um largo sorriso de quem está a educar os seus bebés segundo os princípios que discutíamos em aulas. Finalmente, antes de apanhar o táxi para ir treinar, pois, como usual, distraí-me com as horas, fiquei impressionado com a conversa entre a Professora Joana e o seu filho Gabriel: “Mamã: Porquê que as sandálias estão a escorregar menos que as sapatinhas!” – este queria compreender porque os seu calçado, na mesma superfície, não lhe proporcionava a sensação de deslize que as sapatilhas que havia calçado anteriormente. (Um debate entre dois filósofos e um espectador a apanhar nabos no ar!)

Professor Santiago – 3 anos

SÍNDROME PETER PAN

Onde está a nossa curiosidade? O que é feito daquele espírito juvenil? Enquanto houver crianças no mundo, a Humanidade está salva! Os infantes são a recordação de como a curiosidade é um preenchimento de vida e de como viver o momento é tão essencial. Quando somos adultos, o futuro causa-nos ansiedade: os projetos que faltam para cumprir, as medalhas que ainda não ganhámos e as contam que faltam para pagar tiram-nos o sono. Tudo para nós é uma garantia! Mahatma Gandhi, líder budista, sintetiza esta arrogância quando afirma: “O ser humano vive como se fosse imortal.” O que nos faz ter tal postura? Existe uma história que a minha professora Joana nos contou no 11º Ano para nos falar sobre o que era uma dedução precipitada: “Havia uma galinha que todos os dias era alimentada por um agricultor. Um dia a galinha estava à espera do alimento: o agricultor cortou-lhe a cabeça!” Apesar de muito curta, é uma história que tem em grande ensinamento prático para a vida. De facto, quantas vezes nos acomodamos na vida? Será que a galinha tinha sido morta se tivesse a iniciativa de ter procurado por si o alimento? À medida que crescemos, assumimos (na minha opinião: lamentavelmente!) de que a nossa coleção de vivências é suficientemente alargada para nos assumirmos e nos posicionarmos no mundo. Quando olho para as crianças, elas lembram-me de como é importante nos mantermos curiosos pelas mais simples trivialidades, pois é nessa simplicidade que nos são revelados os mais brilhantes pormenores.

Actualmente, tenho duas pessoas que têm esse papel fantástico: o Enzo, meu sobrinho; e o Santiago, filho do Professor Jorge (Exatamente: o meu treinador!) Estas duas crianças têm três anos, mas quando brinco com elas fico absolutamente fascinado com aquilo que elas têm para me oferecer. Lembro-me de uma vez em que fomos jantar para celebrar o aniversário da Telma; como já é usual, peguei no meu companheiro às cavalitas e lá fomos explorar o Universo. Uma das nossas brincadeiras foi tocar, sob comando do pequeno Santiago, a casca das árvores do jardim em que andávamos a correr. Apesar de todas as árvores serem iguais (aos meus olhos, estragados pela ignorância de não conhecer!), aos olhos do Santiago eram todas diferentes. Durante cerca de 10 minutos, dei por mim, radiante, a constatar a diferença no seu revelo. Qual foi a última vez que tivemos esta postura? Será que todos os dias o caminho que fazemos até ao trabalho é igual? O que acontecerá se mantivermos curiosos?

Professor Enzo – 3 anos