DITADO – SENTIDOS

08 Out 2019
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DITADO – SENTIDOS

No quarto contíguo à minha existência, 8 de outubro de 2019

Desde cedo que sinto que sou um ser pensante: é evidente que todos nós temos pensamentos e cognições abrangentes (umas suaves como seda – outras ásperas como a língua de um gato); no entanto, nem todos utilizamos a nossa capacidade e racionalidade de igual forma. Na minha opinião, a sociedade – em termos de correntes de pensamento intraindividual – fraciona-se em três franjas: os líderes, as ovelhas e lobos. Os líderes são pessoas que têm a capacidade de provocar alterações – revolucionam o mundo com a sua necessidade de uma condição mais ampla e larga. As ovelhas seguem os líderes sem inquirir qual a rota e destino, simplesmente conformam-se em escoltar tendências; desta forma, não evidenciam um pensamento crítico da realidade que lhes compraz, nem tão pouco têm a audácia de propor caminhos ou alternativas à cadência de acontecimentos. Finalmente, os lobos são os indivíduos cujos sapatos da realidade os magoam e, por isso, são atraídos por uma espiral de cognições críticas e segregadas na essência do meio que lhes é proposto. Quem és tu? Líder. Ovelha. Lobo. Enquanto ser humano que se enquadra numa perspetiva humanista de pensamento analítico, identifico-me com o lobo social não só porque necessito da minha própria solidão interior como também careço de um movimento silencioso de alma que me permite obter as minhas próprias inferências lógicas e paradigmas.

Com este enquadramento sociológico, trago-te uma música que se me penetrou na pele, emulsionou-me com a sua emoção – roubou-me a pulsação. Quando a escutei pela primeira vez estava comprimido numa divisão habitacional que me trilhava a vontade de atingir latitudes mais tangíveis, o dedilhar de um contorno que se promete no horizonte; a sua melodia ecoou nos recônditos do meu eu consciente e existiu uma aproximação direta ao aconchego da pele nua do sujeito musical. A música chama-se “Sentidos” e pertence a um projeto que “tem rap e algum hip-hop” como me confidenciou o seu vocalista – Diogo Fernandes. Vamos analisar o conteúdo desta música e relacioná-lo com a resiliência?

O sujeito musical é um lobo social e por isso escreve com atrevimento e fúria aquilo que é o resultado de uma introspeção por comparação a paradigmas, ideologias e cadeias valorativas (“Passo para o papel, livre e sem pudor […] Limpar a cabeça de forma racional”). Assim, este rap e a reflexão do seu protagonista dividem-se em três momentos: ação, constatação e proposta.

Num primeiro movimento, o eu musical mostra-nos logo àquilo a que se propõe “[dando] o que tinha e o que não tinha por um final diferente” com uma “inocência […] embora eloquente”. Desta forma, o sujeito afirma-se como um ser resiliente e com uma capacidade de se revolucionar e renovar através de um exercício artístico e concreto pois “nos dias mais cinzentos vem a inspiração”. Com efeito, denota-se uma ação alienada da realidade à qual está sujeitado, existindo, desta forma, uma auto-segregação (intencional!) que lhe permite racionalizar as aceções reais que se lhe descorrem à visão atenta e consciente:

 

“Valores maiores se levantam de um jeito natural

Do que puder falar passo a minha mensagem

Sem medos digo o que penso, tenho essa coragem

Para quê ficar calado, se isto é uma passagem”

 

Num segundo átimo, o sujeito faz constatações externas e internas oferecendo-nos o sustento que vigora o seu pensamento, o amor: “Ás vezes parece que escrevo com rancor / Mas não, eu tenho uma família que carrega amor”. Assim, contrariamente ao conteúdo de elucida o comboio da sua racionalidade afetiva, fica clara a ostentação de uma sociedade capitalista com um consumo desmedido e uma ambição atroz de um devaneio incompatível com os valores que são profetizados pelos eu musical:

 

“Gente com objetivos tão desatuais

Já não era assim no tempo dos meus pais

Infelizmente existe e não somos iguais

Vidas pobres, desnutridas, breves e banais

Consumismo embutido para só mostrar

 Pensamento desmedido, apenas afirmar

Sociedade sem limites, só quer aconchegar

Vive de apetites e do que quer comprar”

 

Finalmente – e para mim o momento musical mais importante – chega-nos no refrão uma proposta de valor sob a forma de resiliência assente em quatro pilares: racionalidade, fé, perspetiva e sentido. Por um lado, quem é resiliente é necessariamente um ser racional no sentido de colocar outras alternativas quando se lhe esbate a adversidade: “São sentidos com razão”. Por outro lado, é fundamental que exista uma crença e energia positiva para que tenhamos força para nos levantarmos – esta fé pode ser um ser superior, uma energia, o universo: “São mantidos em oração”. Ser resiliente é ser-se crente. Com efeito, consequência destas duas primeiras atitudes, surge o colocar a adversidade e a realidade que se nos impõe de forma a que tenhamos ganhos concretos com a situação em questão: “São motivos em consideração”. Assim, a apoteose – o império espiritual – é nos transmitido na última estrofe “São altivos em união”: ou seja, são pensamentos e paradigmas que quando unificados transformam-se no sujeito musical – pensante, introspetivo e eloquente. Quem és tu? Identificaste com a mensagem do lobo social? Compreendes a proposta de valor e resiliência do eu musical? Vai a correr ouvir a música: Ditado – Sentidos. Tu és um #DLFighter: Está tudo em ti!

 

Carter B. Rey


Foto: Duarte Machado

Roupa: Zara

 

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