MÁSCARA DE OXIGÉNIO

03 Mar 2019
Pessoal
avião

MÁSCARA DE OXIGÉNIO

O céu estava vestido por um azul impecavelmente nítido que absorvia a energia de um sol contagiante; eu caminhava num passo lerdo e vagaroso resultante da falta de mobilidade proporcionada pela medicação. Pese embora a apatia física, o meu cérebro funcionava a uma velocidade estonteante e sentia como se cada porção do universo se expandisse no seu interior. Cada pensamento – que, na verdade, possuía as características de galáxias e cometas – penetrava-me e nesse movimento cintilante me marca com uma poeira nostálgica como o efeito proporcionado pelas fachadas das casas nos velhos do antigo Alentejo. Naquele dia uma melancólica ditava o compasso da orquestra e eu era apenas a batuta na mão do maestro.

Todos temos dias assim: como se fossemos exteriores à nossa própria vida e alguém toma inadvertidamente o nosso lugar; era mais do que um estádio – um jeito de se comungava no horizonte e imprimia o seu resultado na minha individualidade… De repente, um feixe de luz rasgou a minha mentalidade, um rosto tomara forma; Joana Rigato era o seu nome.

– Olá, Celinho. Como estás? Finalmente encontramos compatibilidade de horários – disse a filosofa da Ciência do outro lado da linha. Segundos depois estávamos numa conversação fluída e empática – aquele tipo de conversa entre velhos amigos. Discutimos acerca da minha patologia, os efeitos da medicação e como interagir com a Internet de uma forma mais saudável de modo a não me expor demasiado. Tomei notas de uma personalidade experiente e sempre coerente entre ação e pensamento.

Na aviação existe uma regra: em caso de despressurização do avião devemos colocar primeiro a nossa máscara de oxigénio e depois é que estamos capacitados para ajudar os nossos pares. A minha professora advertiu-me desta mensagem. Apesar de eu quer sempre ajudar as outras pessoas com o meu testemunho, devo perceber se estou capaz de o fazer e obter essa avaliação em cada momento para que aos meus leitores chegue um testemunho organizado e eloquente – essa é a minha missão. No momento particular que vivia não estava com os recursos necessários para ajudar outras pessoas com a minha mensagem. Por isso, agora, aqui estou eu: com uma ideia clara daquilo que quero fazer e o testemunho que quero passar. Por vezes tudo o que temos que fazer é, apesar de estarmos dentro da tempestade, fazermos o exercício de distinção entre aquilo que é a nossa pele e o que é exterior à mesma para nos protegermos e empoderar os outros com o nosso relato. Não te esqueças – Está tudo em ti!

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