METAFÍSICA DA RESILIÊNCIA

01 Out 2019
Desenvolvimento Pessoal, Lifestyle
Metafísica da Resiliência

METAFÍSICA DA RESILIÊNCIA

Monte Kapta G’z: 1 de Outubro de 2019

 

“Tenho em mim todas as feridas das batalhas que evitei” – Fernando Pessoa

 

Bem-vind@ ao Days of Light and Fights! Já estava com saudades de escrever conteúdos para ti; tu que através da experiência empírica me permites ser um pouco mais – compreender-me melhor. Estive ausente principalmente devido à minha doença mental (esquizofrenia paranóide) que me tem oferecido alguns desafios nos últimos três anos da minha vida.

Contudo, decidi deixar-me de desculpas e escrever para ti, para mim: para nós! Esta é a única forma que me tens de conhecer, e eu a ti… A escrita permite-me ser tudo aquilo que eu não sou. Na escrita assumo o meu papel de artista: de fazedor de coisas – alguém que cria e vai para além do concreto; desde pequeno que me sinto assim, a ultrapassar os limites da realidade.

Escrevo porque posso avocar a minha forma trinitária como o santíssimo mistério: sou poeta (quando rasgo com a fúria da minha caneta todo o papel com a emoção sublimada do consciente inebriante), sou puta (quando na loucura do ser me deixo levar pelos condicionalismos da existência!); e, finalmente, sou louco porque na condição que me é finita compraz-me uma identidade que se satisfaz na leve gemada do encantamento sideral…

Desta vez, vou assumir aquilo que é o meu traço de risco e compartilhar contigo aquilo que são os meus insights sobre a resiliência. Ao longo dos últimos tempos, para a preparação de palestras e conteúdo do blogue, tenho-me debruçado sobre este assunto como uma mãe sobre o leito do seu amado infante!

A resiliência é um conceito que nasce na Física traduzindo, desta feita, a resistência de um dado objeto a uma força ou energia. No entanto, na Psicologia a sua história tem pouco mais do que 40 anos. Cada vez que bebo mais e saboreio a literacia de quem se resolve dedicar a este tema, fico mais fascinado com a tua capacidade de te ultrapassares e de ires mais além – tu és um navegador inato que com a sua bússola patrulha um conjunto de mapas internos e faz renascer vontades, anseios: sonhos!

Ser resiliente é algo que te é inato, mas nem sempre prestaste atenção a esta característica. Talvez porque ainda sejas ovelha das ovelhas das ovelhas que seguem um pastor sem se questionarem do porquê das suas rotas e destinos. Ser resiliente significa questionar e ser capaz de te impor – de uma forma natural ou afirmada – às regras da adversidade (muitas vezes à beira de um sucesso se precipita (como sedimentos arenosos!) uma dificuldade).

Eu adoro histórias e hoje vou partilhar contigo um episódio pessoal. Queres vir comigo? Fecha os olhos, sente o teu corpo morrer para cada pensamento teu e, num ato altruísta da tua liberdade, calça os meus sapatos. Tens autorização plena para ganhares expressão naquilo que são os meus paradigmas enigmáticos! Esta história leva-nos para o Campeonato do Mundo na Rússia 2014…

Tinha  acabado de vir de uma prova em que as cãibras se tinha manifestado no meu corpo físico. Não sabia ao certo qual era a sua causa. Contudo, já suspeitava que tinham uma componente psicológica uma vez que tinha feito análises, alterado a minha dieta e aumentado o regime de treinos e elas entravam nos meus músculos, como a insanidade na cabeça de qualquer ser errante (pensante!), sem pedir autorização – sempre nos momentos cruciais das provas: os combates pelas medalhas! Não tinha uma explicação lógica – viria a descobrir meses mais tarde após trabalho psicológico com a Dra. Inês Vigário.

Lá estava eu: fisicamente bem preparado, com vontade de competir. Pesando a consternação de um fantasma impeditivo de vitórias – senti-lhe o peso exagerado com as palmas das mãos. Para esta deslocação levara comigo a minha psicóloga que me convidou a fazer um exercício de storytelling após se aperceber do meu estado psicológico: tratava-se de escrever sobre aquilo que eu sentia no momento e metaforizar as cãibras de modo a compreendê-las melhor.

O resultado foi a história do senhor Fukumi e as maçãs amarelas; um camponês que na altura que mais precisava das suas maçãs vermelhas para fazer o doce que lhe permitiria obter receitas para pagar os tratamentos à sua mulher (Kondo) – à beira da morte –, os frutos das suas árvores, devido a uma praga, tornam-se amarelos. O camponês fica desesperado e paralisado perante a desgraça que o assola. O que o salva? (O que tu farias na situação do japonês?
– reflete por uns instantes, pára a tua leitura neste ponto).

Kondo, lívida e calma, levanta-se do leito e, dirigindo-se ao seu marido com serenidade e a destreza de alma que lhe habitava, interpela-o: Será que não consegues fazer um doce diferente com estas maçãs? O senhor Fukumi teve aquilo que em Psicologia se chama um ahah-moment: um insight; ele compreendeu que, com um pouco de criatividade e empenho, conseguiria transformar a novidade que se lhe descorria perante os seus olhos em algo diferente, mas, mesmo assim, lucrativo.

Sabes o que aconteceu? O doce foi um sucesso. Também foi assim a minha prova: ganhei dois combates, derrotando pelo percurso o atual campeão olímpico. Classifiquei-me em nono lugar no Campeonato do Mundo de Seniores 2014. Este pequeno truque – o storytelling –permitiu-me perceber que as cãibras não estavam para além da minha vontade de ser melhor que eu mesmo.

Pergunto-te a ti: olhando-te nos olhos – de frente: Terias a coragem do camponês? A audácia de te reinventares e criares um novo doce? Estou certo que sim. Cada ser humano, e embora não acredites no teu potencial – eu, pese embora essa possível constatação, acredito na tua essência e capacidade de renascer –, tem a semente de se suplantar e cumprir. Como diria Píndaro: de se ser aquilo que é!

Tens essa capacidade #DLFighter. Tal como eu tive a capacidade de não me deixar arrastar pelos meus empecilhos internos e inquisitivos (ao final de contas: dúvidas!), também tu tens a capacidade de te cumprires e fazer crescer – habitar – o teu império espiritual. O que vais fazer da próxima vez que olhares pela janela e vires as tuas maçãs amarelas? Tu és um #DLFighter –Está tudo em ti!

 

Sinceramente,

 

Carter B. Rey


 

Foto por Duarte Machado

Fato por Zara Man

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