O AUTOCARRO DO POVO

30 Mai 2016
Pessoal
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O AUTOCARRO DO POVO

Até quando o passado vai ser uma prisão? Até que ponto o facto de não controlarmos o que nos acontece é justificação para uma atitude de estagnação?

CORRER ATÉ MORRER

Depois de ter perdido a minha carteira de manhã (para começar o dia em beleza!) e ter corrido a maratona sob o comando do Professor Jorge, arrastei-me com o Martinho – amigo e judoca do Benfica – até à paragem de autocarros. Estou numa missão: poupar dinheiro! Nestas últimas semanas, tenho me esquecido que a minha bolsa de moedas tem fundo; consequentemente, deu-me um ataque quando repousei a testa sobre a mão e contei os meus cifrões (Claro que não fui ao hospital!) Portanto, iniciei o dia com uma grande motivação… Não fosse esta arrasada pela projeção das filas na loja do cidadão e pelo pesar nas pernas (Será que algum dia vou obrigar o Professor a cumprir estes treinos malucos? Babo-me só com a visualização!)

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Por fim, alcançámos o nosso destino: eu a rastejar ao ritmo da gargalhadas de troça do Martinho (Pimenta nos olhos dos outros não arde, não é o que dizem?) Sentei-me na paragem ao lado do único passageiro que, com um ar aborrecido, descansava as mãos sobre uma barriga experimente. Quando abre a boca, noto que lhe faltam alguns dentes: “Já estou à espera há 30 minutos!” – atira impacientemente; as nossas caras contraem-se em sorrisos concordantes. De facto, o “autocarro do povo” estava atrasado mas nós estávamos entretidos a discutir as vantagens de termos uma equipa que construiu uma estrutura independente – o tempo é sempre efémero, contraditória a sua percepção. Por entre carros a velocidades médias, finalmente surge a nossa boleia. “Estou a ver bastantes cabeças!” – constata o Martinho no tom irónico que lhe é habitual. Com a antecipação do mau cheiro e dos encontrões: uma gargalhada bem viva invade o ar.

SEJAM BEM-VINDOS

A particularidade deste autocarro é que um dos segmentos que realiza passa pela Amadora e, à hora que apanhámos o transporte, vem sempre lotado. Digo que é o “bairro em movimento” porque em todas as viagens que faço oiço sempre discussões entre os passageiros e o motorista, palavrões que marcam as conversas como vírgulas; jovens mães derretidas com os seus recém-nascidos ao colo e raparigas que choram o um amor não correspondido por causa de uma “cadela” que têm que pôr na ordem. Um cenário que me é bastante familiar – nostalgia e diversão. Uma das protagonistas da viagem foi uma rapariga atrevida com um vestuário que lhe destacava um peito cheio; uma voz esganiçada que, ao dispersar-se pela atmosfera, feria os ouvidos dos passageiros não só apenas por causa do timbre, mas sobretudo porque os enunciados que ditava eram uma extensão de neurónios cheios de ar e sinapses – claramente – interrompidas!

DE VOLTA AO BERÇO

Perante o conteúdo do discurso, ou pela sua falta, noto que começo a ficar com alguma tensão facial; de repente, sou atirado para a minha infância: rodeado por todo um cenário em que, em afirmações convictas, ouvia: “Eu sou mesmo do ghetto: quem gostar, gosta; quem não gostar não gosta!” – um mixoxo a acompanhar. Este tipo de declarações sempre me fizeram fervilhar sangue. Desde quando é que crescer no bairro é um fundamento para a má educação? Conheço um batalhão de pessoas, nomeadamente atletas com carreiras de destaque e cursos universitários concluídos, como são o caso das minhas amigas Telma Monteiro, Sandra Borges e Ana Monteiro, que são bem-formadas e cheias de valores e princípios – fontes de inspiração (Todos, elas e eu, crescemos no mesmo bairro, bebemos das mesmas origens e temos a mesma visão relativamente a este assunto!)

Nascer no bairro é apenas uma condição base, não é uma sentença. O que dizer do senhor americano que esteve 42 anos preso injustamente que quando abandona a prisão, depois de apurados os factos e ser-se destacado pelo seu comportamento, diz: “Só porque estamos numa prisão, não temos que agir como criminosos.” Quando nascemos uma vida é-nos entregue e com ela um pacote de liberdade (não ilimitado!) Dentro dessa embalagem, vem uma responsabilidade de ação e um dever de educação para que possamos contribuir para uma sociedade produtiva e mais justa. O Estado é responsável e fornece parte dessa educação; o aprofundamento desses conhecimentos é inteiramente da esfera pessoal. Se temos um telemóvel com Internet para postarmos lindas fotografias nas nossas redes sociais, porque não utilizar essa mesma habilidade para preencher e desenvolver a mente com conteúdos e aprender novas competências?

CULPA: MORTE E RENASCIMENTO

Como atleta da alta competição aprendi que a culpa das minhas derrotas é – sempre – minha! Não vale de nada aliviar o peso dos desaires culpando entidades externas. Acerca de uma das teorias acerca do conceito de livre-arbítrio vs determinismo, um filósofo descreve uma das posições como “um reles subterfúgio de palavras” (Professora Joana Rigato: pode aclarar-me a memória?) Na minha opinião, quando nos desculpamos com “a má sorte do destino” estamos apenas a refugiam-nos da culpa e negligenciar uma oportunidade de mudança. Qual é o custo de uma atitude de irresponsabilidade e procrastinação?

(Vou continuar a dançar ao som de África, tal como a rapariga de corpo esguio vai continuar a esvoaçar as tranças ao vento. A vida quer-se apaixonada e a vista de um ponto, só e apenas, a vista de um ponto.)

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