POR TERRAS DE PETER PAN

01 Jun 2016
Pessoal
Célio Dias

POR TERRAS DE PETER PAN

ESTÍMULOS

“Mamã: Porque é que as sandálias estão a escorregar menos que as sapatilhas?”

Gabriel

Ocasionalmente, costumo encontrar-me com a minha professora de Filosofia – Joana Rigato: uma mulher alta, com cabelos muito lisos; uns olhos verdes – contagiantes – que deixam transparecer o fervor de alma que anima cada palavra do seu discurso. Conhecemo-nos no Colégio São João de Brito (instituição que me ofereceu uma bolsa de estudos no Ensino Secundário!) e a minha paixão pelas suas aulas foi inevitável: cada lição foi uma aprendizagem, uma oportunidade de questionar e construir um novo castelo de dogmas e preconceitos – uma arte minha, não imposta por cabeças alheias! Inesquecíveis são os debates sobre o livre-arbítrio; todas as aulas levávamos novos argumentos e teorias para debatermos para, passados uns minutos, não passarem de estilhaços no chão – frustração. Várias foram as vezes de que abandonei a sala derrotado e até infeliz pois compreendi (Talvez!) o magnitude e o impacto de uma vivência em que se está sempre a fazer perguntas e a tentar perceber a realidade – seja lá o que isso for! (O importante não é chegar, mas sim partir. Não era o que dizia Miguel Torga?)

Num desses encontros, reunimo-nos para discutir um livro que se chama “What Money Can Buy?” de um filósofo americano, Michael Sandel, pois estava impressionado (ingenuamente!) com as implicações e consequências do capitalismo no mundo atual; percebi que realmente tudo, mesmo tudo, é vendível: nova crise existencial (Esta é a razão pela qual não leio, admito que por cobardia, mais livros de filosofia Às vezes, uma reflexão pode ser simplesmente avassaladora e transformante. Nem sempre consigo manter a estabilidade emocional quando opto por este tipo de literatura) Fomos para perto de um jardim perto da casa da minha professora, com os seus filhos, o Gabriel e a Clara, e começámos a debater o que tinha lido. Passado algum tempo, e porque os seus filhos nos acompanhavam, a professora começou a explicar-me parte da educação que dá aos seus filhos: “Para mim é importante satisfazer a curiosidade os meninos. Nem sempre é fácil pois fazem muitas perguntas. No outro dia, a Clarinha começou-me a perguntar para que servia a anestesia e eu acabei por lhe explicar o funcionamento dos neurónios e sinapses!” – um largo sorriso de quem está a educar os seus bebés segundo os princípios que discutíamos em aulas. Finalmente, antes de apanhar o táxi para ir treinar, pois, como usual, distraí-me com as horas, fiquei impressionado com a conversa entre a Professora Joana e o seu filho Gabriel: “Mamã: Porquê que as sandálias estão a escorregar menos que as sapatinhas!” – este queria compreender porque os seu calçado, na mesma superfície, não lhe proporcionava a sensação de deslize que as sapatilhas que havia calçado anteriormente. (Um debate entre dois filósofos e um espectador a apanhar nabos no ar!)

Professor Santiago – 3 anos

SÍNDROME PETER PAN

Onde está a nossa curiosidade? O que é feito daquele espírito juvenil? Enquanto houver crianças no mundo, a Humanidade está salva! Os infantes são a recordação de como a curiosidade é um preenchimento de vida e de como viver o momento é tão essencial. Quando somos adultos, o futuro causa-nos ansiedade: os projetos que faltam para cumprir, as medalhas que ainda não ganhámos e as contam que faltam para pagar tiram-nos o sono. Tudo para nós é uma garantia! Mahatma Gandhi, líder budista, sintetiza esta arrogância quando afirma: “O ser humano vive como se fosse imortal.” O que nos faz ter tal postura? Existe uma história que a minha professora Joana nos contou no 11º Ano para nos falar sobre o que era uma dedução precipitada: “Havia uma galinha que todos os dias era alimentada por um agricultor. Um dia a galinha estava à espera do alimento: o agricultor cortou-lhe a cabeça!” Apesar de muito curta, é uma história que tem em grande ensinamento prático para a vida. De facto, quantas vezes nos acomodamos na vida? Será que a galinha tinha sido morta se tivesse a iniciativa de ter procurado por si o alimento? À medida que crescemos, assumimos (na minha opinião: lamentavelmente!) de que a nossa coleção de vivências é suficientemente alargada para nos assumirmos e nos posicionarmos no mundo. Quando olho para as crianças, elas lembram-me de como é importante nos mantermos curiosos pelas mais simples trivialidades, pois é nessa simplicidade que nos são revelados os mais brilhantes pormenores.

Actualmente, tenho duas pessoas que têm esse papel fantástico: o Enzo, meu sobrinho; e o Santiago, filho do Professor Jorge (Exatamente: o meu treinador!) Estas duas crianças têm três anos, mas quando brinco com elas fico absolutamente fascinado com aquilo que elas têm para me oferecer. Lembro-me de uma vez em que fomos jantar para celebrar o aniversário da Telma; como já é usual, peguei no meu companheiro às cavalitas e lá fomos explorar o Universo. Uma das nossas brincadeiras foi tocar, sob comando do pequeno Santiago, a casca das árvores do jardim em que andávamos a correr. Apesar de todas as árvores serem iguais (aos meus olhos, estragados pela ignorância de não conhecer!), aos olhos do Santiago eram todas diferentes. Durante cerca de 10 minutos, dei por mim, radiante, a constatar a diferença no seu revelo. Qual foi a última vez que tivemos esta postura? Será que todos os dias o caminho que fazemos até ao trabalho é igual? O que acontecerá se mantivermos curiosos?

Professor Enzo – 3 anos

    Deixar uma resposta