PSICOLOGIA E SAÚDE – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE V

25 Set 2018
Desenvolvimento Pessoal, Pessoal
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PSICOLOGIA E SAÚDE – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE V

Os relacionamentos não são fáceis e as pessoas de quem gostamos são aquelas que, por vezes, queremos que mudem mais. Nunca te aconteceu? Quereres que a tua mãe fosse menos chata e implica-se menos por seres desarrumado (a)? A minha mãe é fanática das limpezas e eu como sou desarrumado gostava que ela fosse mais flexível em certos aspetos; “Enilson [nome de casa] já viste como deixaste a casa  de banho?” – grita a minha mamã com gestos largos e expansivos: eu já a suar porque pensei que passou um tsunami na casa de banho e quando vou a ver… era apenas uma toalha fora do lugar (Mãezinha, se eu pudesse mudar algo em ti seria isso… mas os beijinhos de damos na boca ajeitam algumas das situações mais acesas e perigosas).

 

UMA TEMPESTADE COM PELE

Quando saí do meu segundo internamento na ala psiquiátrica do Garcia da Horta estava com o fogo nas ventas. Como é que alguns dos meus melhores amigos não me foram visitar ao hospital e como é que nem foram capazes de ligar à minha família para saber como é que eu estava? Toda uma teoria da conspiração Illuminati a brotar dos meus (alguns queimados, devo admitir) neurónios. (Tive um companheiro que dizia que eu era o seu maluquinho – um termo que eu aceitava de bom agrado – para qualificar a minha capacidade de inventar teorias lunáticas; será que já era doente mental antes de efetivamente o ser? Tendo em conta que o meu melhor amigo Gonçalo Mansinho me chamava bipolar pelo facto de todos os dias ser uma pessoa diferente, penso que sim. Era o que eu lhe dizia: “Eu deito-me uma pessoa e no dia seguinte não sei quem sou!” (Tenho alter-ego feminino que se Sheila – a personagem é uma prostituta espanhola que estuda filosofia e incorpora a personagem da Cármen Miranda -; em grossos modos: tudo o que é preciso é um baton vermelho (sim, porque sou seletiva!), uma lingerie, uns saltos altos e uma toalha para colocar em volta da cabeça e toda a magia acontece ao som da música pop mais rasca – Doina Babcenco achas que descrevi bem parte dos nossos serões? Já imaginaram um negro grande e musculado a dançar e a fazer o twerk? Não percam a minha próxima atuação no Finalmente!) Resumindo: sou uma pessoa que vê o branco e o preto – para mim não existem cores intermédias – facto que em parte, fora de brincadeiras, justifica a minha doença mental.

 

COLOCANDO EM PERSPETIVA

Tenho um treinador japonês que se chama Go Tsunoda; a nossa relação e conexão espirituais são inexplicáveis; foi o primeiro homem com quem me liguei emocionalmente isto porque durante a minha adolescência e parte da vida adulta não deixava que os homens se aproximassem de mim a um nível mais profundo porque não queria que pensassem que estava sexualmente interessado neles (Afinal de contas por ser gay tenho que gostar de todos os indivíduos do sexo masculino, certo? Estou aqui só do meu salto alto mandando um shadezinho – se não sabes o que isto significa pergunta ao teu amigo gay que te explique, está bem? – Beijinho no ombro migas!) E porque a primeira relação emocional com um homem não foi com o meu pai? (Se quiseres saber manda-me um email para celio.ucha.dias@gmail.com)

Passei momentos inesquecíveis com este meu treinador e a melhor parte de tudo eram as nossas conversas filosóficas. O Go estudou literatura no Japão e estabeleceu-se na Europa aos 27 anos e é um homem com uma densidade emocional simplesmente avassaladora. Quando tive o primeiro surto psicótico, passados alguns meses estivemos juntos e ele disse-me o seguinte: “A mim  quando me disseram que estavas louco achei que eles eram todos uns cobardes só porque dizias que querias matar pessoas!” – nisto faz uma pausa enfática e no segundo seguinte atira-se na minha direção e abala-me desta forma: “Se Célio Dias quer matar Go Tsunoda, mata-me!” Como podem calcular fiquei estremecido e fiz o meu melhor para não chorar!

Aprendi muitas temáticas interessantes com o Go desde a minha maneira como vejo atualmente o Judo até à forma como me relaciono com o meu namorado. Numa dessas tardes perdidas entre melancolia e passado ele disse-me o seguinte:

“Sabes Célio: a vida é um longo processo de aprendizagem e nesse processo há pessoas que ficam e outras que vão. Devemos deixar que as que partem levem a nossa paz com elas e as que fiquem mereçam o nosso amor.”

Neste momento estou desligado dos meus amigos do judo; algumas amizades não sei se vou conseguir reatar porque quando estava descompensado magoei muito essas pessoas… Mas hoje que estou mais equilibrado sinto que sou capaz de num processo maturado e de desenvolvimento fazer exatamente aquilo que o Go me ensinou. Sendo muito pratico: o meu melhor amigo Gonçalo Mansinho está atarefado com a faculdade, com os treinos bi-diários e com o stress da qualificação olímpica; vou julgá-lo por nestes últimos meses estar mais distante ou vou valorizar o momento em que eu completamente sedado da medicação me colocou creme nos pés? Ele é o meu melhor amigo e a vida como ele não me trará portanto nestes meses em que estamos mais afastados vou ter o mesmo discernimento de amor da filha do comerciante do romance Alquimista de Paulo Coelho que sem egoísmo deixa pastor partir rumo ao seu destino.

 

OS SOLDADOS DO AMOR

No desenvolvimento desta temática quero agradecer aos meus Soldados do Amor à minha mãe que quando lhe disse que a queria matar abraçou-se a mim, beijou-me e disse que eu não era capaz de o fazer porque o Bem que me lidera é mais brilhante em mim; a maturidade do meu afilhado que me implorou para eu não me matar; ao meu braço direito – a minha mana Cátia – que, quando disse que lhe queria matar, desarmou-me rindo-se e disse-me que então íamos ter que lutar os dois; à melancolia do meu pai que me diz que me ama; à minha sobrinha com quem falo sempre que as vozes estão a falar comigo; ao meu sobrinho que me mantém no caminho da luz e não me deixa cometer nenhuma loucura; e, finalmente, ao meu compadre (marido da minha irmã Cátia) que me abraça quando me sinto perdido.

Quero ainda agradecer ao presidente do Comité Olímpico o Dr. Manuel Constantino, ao presidente da Federação Portuguesa de Judo Jorge Fernandes e à selecionadora nacional Ana Hormigo que têm providenciado o meu suporte financeiro desde que rescindi o meu contrato com o Benfica.

Quero agradecer à generosidade do meu Mestre Vitor Caetano e da sua mulher Angelina Caetano por me terem recebido de braços abertos e sem despeito no meu clube mãe – o CNS Construções Norte-Sul. Dois corações de uma humanidade arrepiante!

Obrigado a todos os Soldados do Amor que me acompanham nesta jornada. Quero agradecer-te a ti que estás desse lado e que me transmites as tuas energias positivas. Se estás a passar por um momento bom na tua vida hoje à noite não te esqueças de agradecer – mais que não seja porque quando mostramos gratidão os nossos centros de recompensa libertam dopamina que nos permite relaxar -se estás a passar por um mau momento coloca um sorriso na cara e acredita que a tua oportunidade vai chegar – Está tudo em TI!

Se me quiseres escrever sente-te à vontade, eu quero ouvir a tua história: celio.ucha.dias@gmail.com.

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