PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE II

22 Set 2018
Pessoal
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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE II

O artigo de ontem foi um pouco «mind blowing»: as mentes mais fechadas ou distraídas tiveram que apertar os cintos de segurança para não se despistarem. Mas antes de continuar quero agradecer o imenso apoio que tenho recebido e mensagens de encorajamento: contigo não me sinto sozinho e é essa uma das razões que me permitem sobreviver nos dias de hoje. Ontem falei de “Um Janeiro que dura até ao Verão” mas não é o frio que se manifesta neste ambiente de penumbra e assombro, antes é o calor de uma tempestade tropical. Hoje quero partilhar o que são estas vozes que oiço dentro da minha cabeça para que possam perceber melhor o meu distúrbio mental.

 

UMA VOZ RADIOFÓNICA

Imagina que chegaste a casa depois de um dia de praia e vais para o teu quarto descansar. Estás com um bronze fantástico (se tiveres o meu tom de pele o mais provável é que com o excesso de sol fiques com reflexos azuis, digamos que te tornas na nova versão mais avançada do Avatar); os teus olhos explodem o brilho que se reflecte na água do mar e assumes uma postura concordante com o teu estado de espírito: atiras os chinelos de um jeito qualquer e atiraste-te num largo movimento de preguiça para a cama. Até aqui tudo bem; ainda sentes o rosto a ser afagado pela brisa e maresia, sorris porque esse é o que o teu rosto fresco te proporciona: leveza, lânguidos bocejos e um deleite abençoado pelo calor airoso da areia da praia; encostas a cabeça na almoçada e de repente ouves na tua cabeça:

“Seu filho da puta estás aqui na cama e devias era estar a matar a tua mãe porque és o Deus do Universo.”

Provavelmente formas um “V” com as sobrancelhas e dizes: «Que pensamento mais disparatado!». Virar-te na almofada e a voz prosegue:

“És mesmo manipulador! Não tens vergonha. Se voltares a respirar é a prova que vais matar a tua mãe!”

Provavelmente o sorriso outrora pincelado na tua face icónica desvanece-se e ficas a pensar se está tudo bem contigo porque agora sentes o coração a arquejar dentro da armadura óssea e começas a tremer descontroladamente… Qual o motivo? Não percebes tiveste um dia maravilhoso, certo? Mas a voz adianta-se:

“Sabes não é primeira vez que engano alguém para matar outra pessoa… Tu vendeste-me a tua alma. Isto é um jogo e só eu posso ganhar. És uma merda não vales nada. Se te levantares vais matar o teu pai: aquele gordo de merda filho da  puta. Ele não vale nada!”

Por esta altura, com os suores frios a escorrerem-te pelo corpo como se tivesses acabado de tomar banho; o coração na garganta a pedir para ser expelido pela boca e começas, de facto, a acreditar no discurso que pela tua mente escorre. Como és atleta aprendeste a fazer a estratégia da correção de pensamento (técnica utilizada para desviar pensamentos negativos e intrusivos); para teu azar tentaste uma e outra vez e a voz não se cala. Mas que grande merda… Pensas: «Eu não vou fazer o que a voz me está a dizer». Neste momento sentes que foste atropelado por um camião; estás exausto mas não consegues adormecer. O que se passa? Fechas os olhos e tentas pensar em temáticas positivas mas sempre que o tentas fazer visualizas cabeças a rolar, facas a serem espetadas nas costas da tua mãe… Estarei a ficar louco? Finalmente adormeces e tens um sono de quando em vez interrompido pelas palpitações do coração que se está a preparar para o pior cenário. Finalmente, chega o outro dia: a voz não se cala; sais à rua depois de te desembaraçares dos compromisso matinais:

“Estás a ver aquele senhor ali (Sim – responde a tua voz interna que assumes como tua) vais arrancar-lhe a cabeça e aquela criança ali vais esmagar-lhe o crânio!”

Neste momento, tens a sintomatologia do dia anterior. Estarás a enlouquecer?  Só desejas voltar para o quarto e dormir outra vez, mas tens compromissos que não te permitem fazê-lo. Cada pessoa que se aproxima de ti pensas que vais matá-la, violar-lhe e causar-lhe um sofrimento atroz… Como convive uma pessoa que se auto-proclama um humanista viver assim? Agora imaginas ouvires esta voz todos os dias, sem interrupção, desde o momento em que acordas até ao momento em que – finalmente! – te deitas. Dia após dia. Semana após semana. Neste ponto percebes que perdeste toda a tua expressividade, que os teus movimentos são robóticos e não te consegues lembrar das coisas básicas que costumavas saber de cor como o teu número de telemóvel; os teus olhos perderam a vivacidade e estão encovados (Hello Zombie! How’s it going?). Com o desgaste de não conseguires dormir proporcionam-te alucinações em que és o mau da fita pronto para matar.

“Estás numa missão e sabes bem qual é o objetivo: Matar!”

Provavelmente sentes que estás a perder o controlo e pedes ajuda. Entre os vários passos és medicado e experimentas a farmácia inteira de medicamentos e nada resulta. O que farias?

 

(As mentes mais criativas enviem-me as suas respostas para celio.ucha.dias@gmail.com!)

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