PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE III

23 Set 2018
Pessoal
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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE III

A Psiquiatria é considerada o “parente pobre” da medicina e, sinceramente, eu não entendo o porquê! É uma disciplina médica com imenso potencial e cujos conhecimentos e medicação são cada vez mais avançados e com uma intervenção válida na vida dos indivíduos. Compreendo a subjetividade inerente a esta ciência pois um paciente se consultar dois médicos poderá obter informação clínica divergente mas ainda assim não se justifica que um legado tão próspero possa ser negligenciado (Nos Estados Unidos os psiquiatras são conhecidos com os non-doctors). Quando a Organização Mundial da Saúde prevê que a depressão seja a doença do século, não entendo como este descrédito permanece válido. (Se discordares desta opinião marcamos um café e discutimos o assunto!)

 

PASSANDO À FRENTE

Ontem tentei mostrar-te a minha perpetiva e o valor qualia das vozes que tenho dentro da minha cabeça para que de uma forma metafórica pudesses experimentar como têm sido os meus últimos meses da minha vida e a forma agónica e desesperada com que a minha família e eu muitas vezes nos deparamos perante este novo paradigma que se impõe como a aridez e escassez de alimentos no deserto. É muito duro lidar com uma doença mental porque condiciona todos os aspetos da minha vida: estou robótico, perdi todos os movimentos espontâneos e onde havia alegria – nos meus olhos – agora existe um gasear que se prende no horizonte num acto mortífero da existência. Não consigo correr nem dançar: todas as minhas tentativas assemelham-se a um robot que está a aprender como se comportar como um ser humano. (A vida é irónica sempre disse que até me desintegrar na forma atómica pedia a Deus que nunca ficassem comprometidos os meus habilidosos movimentos de dança; parece que Ele tem planos diferentes para mim!). A minha libido sexual é quase inexistente o que condiciona a minha vida íntima, mas tenho um namorado que é bastante compreensivo o que me ajuda a minimizar esta vulnerabilidade. Por vezes, quando vou na rua e alguém mais atento olha para mim apercebo-me que fica com medo. É um sofrimento muito grande sentir que as pessoas me qualificam como alguém perigoso mas, por outro lado, entendo sou negro (com todas as conotações associadas!), tenho 1,88 cm e peso 110 kg se, de facto, imprimisse a minha força poderia magoar seriamente alguém.

 

UMA NOVA DESIGNAÇÃO

Desde que sofro de doença mental tenho três termos a mim cunhados: maluco, fraco de cabeça e preguiçoso. Parece-me importante esclarecer estas designações. Não existem pessoas loucas ou malucas o que existem são situações relacionadas com a infância que ficaram mal arrumadas nos compartimentos da mente ou predisposições genéticas que justificam os comportamentos humanos (mesmo os mais bizarros!). Não estou com isto a desresponsabilizar os indivíduos pelas suas ações; se eu tivesse morto alguém na sequência dos meus pensamentos homicidas deveria ser condenado em conformidade – em última análise somos sempre responsáveis pelas nossas ações. Quando oiço que alguém se dirigiu à minha pessoa como sendo fraquinho de cabeça tenho sempre vontade de me rir; se sou fraco de cabeça como fui eu capaz de atingir as mais elevadas performances e me qualificar para o evento ultimate no panorama desportivo derrotando os melhores atletas do circuito internacional: os Jogos Olímpicos. A preguiça deixei para último porque é o que mais me revolta; «Porque não arranjas um trabalho não és aleijado?», «Tu não queres é fazer nada!». A minha objeção a este argumento é o seguinte: Alguém exige a um cadeirante para andar ou a um surdo para ouvir? Se não estou com uma vida mais activa (como era a minha imagem de marca) é simplesmente porque não consigo!

Se alguma vez sofreste este tipo de comentários numa situação em que estavas debilitado (a) escreve-me: celio.ucha.dias@gmail.com. Desabafar abre-nos novas perpetivas e novos horizontes

Não te esqueças: com as pedras do teu caminho constrói um castelo – Está tudo em ti.

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