PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE IV

24 Set 2018
Pessoal
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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE IV

Hoje vou levar-te numa viagem que te poderá dar algumas pistas para que tu possas próprio (a) consigas lidar com a ansiedade e a gerir a tua frustração. Dás-me a mão? O barco é construído por mim e por ti; é uma conjugação entre as minhas e a tuas vulnerabilidades, uma massa cujo peso, altura e largura permitirá que ela se desloque tranquilamente no mar – mesmo nos momentos mais bravios!

DURANTE A TEMPESTADE

A minha última competição foi em Budapeste, no Campeonato do Mundo de 2017, ou seja, em Setembro de 2017 – classifiquei-me em 9º lugar. Não fiquei satisfeito com o resultado porque sabia que poderia ter chegado mais longe; ganhei os dois primeiros combates. No primeiro combate derrotei o promissor atleta da Estónia MATTIAS KUUSIK (ver combate) e na  ronda seguinte levei a melhor sobre o jovem atleta do Canadá ZACHARY BURT (ver combate). Nos oitavos-de-final defrontei o atleta da Sérvia  NEMANJA MAJDOV. Apesar de ter estado na liderança do combate, acabei por ser derrotado por ippon (ver combate). Este judoca acabou por arrecadar o título de campeão do mundo. Apesar de todas as dificuldades que tive para regressar à competição – ultrapassar um surto psicótico, onze meses de depressão, perder dez quilos para voltar a competir na minha categoria -, estava desanimado porque sabia que tinha mais para dar e que tinha treinado o meu melhor para me apresentar na minha melhor forma possível para lutar por uma medalha no Campeonato Mundial.

 

A NOSTALGIA DE UM TEMPO QUE VAI VOLTAR

Hoje em Baku esteve a decorrer o Campeonato do Mundo 2018. Quando acordei foi a primeira coisa de que me lembrei e tinha o coração a bater forte como nos tempos da manhã da competição; tinha dois sentimentos na minha aquidade: 1) frustração – sei perfeitamente, se Deus não me mudasse os planos, que estaria presente na competição; nos grandes eventos é que se revelam os campeões e eu sou sem dúvida um lutador que gosta de ser colocado à prova; 2) ansiedade – estava a deliberar entre ver a competição (e lidar com os sentimentos negativos que isso me iria (obviamente!) proporcionar) e fazer qualquer outra tarefa para me distrair (o que na minha cabeça significava que estaria a voltar as coisas à verdadeira batalha!). Finalmente levantei-me, com a habitual rigidez muscular, e cumpri com os meus compromissos matinais. Durante o almoço delicioso, o paladar que estava inebriado não me conseguiu afastar-me da competição; foi então que vim para o café e apertei o cinto e preparei-me para o primeiro combate: uma competição com um elevado nível de judo e a minha categoria de peso, segundo os comentadores, era a que apresentava o maior nível de competitividade! Tinha o coração a deslocar-se e a alojar-se a cada segundo que passava na garganta, as mãos a suar e a testa a gotejar toda a inveja que sentia de cada um daqueles lutadores que estavam a fazer aquilo que eu amo: competir! Quando luto, sinto-me no meu habitat natural: a adrenalina a fustigar as veias, o coração descontrolado, as dúvidas que escorrem pela testa, os olhares intimidatórios… Basicamente sinto-me um caçador-recoletor na savana a milhares de anos atrás. Como sinto saudades de viajar com a certeza que ia pisar num cenário meu e ia ter os meus momentos de alegria, raiva, fruição, zanga…

 

UMA MENTE FORTE

Depois de fechar o computador fiz uma reflexão nos últimos dois anos de doença mental. A primeira tendência foi a vitimização: Porque Deus escolheu-me a mim para lutar nesta batalha de ogres e monstros? Este sentimento perdurou durante alguns segundos mas depois coloquei-me a questão: Porque não a mim? Sou algum ser sobrenatural? (Segundo a minha voz sou o Deus do Universo… Era tão bom que isso fosse verdade; a esta altura estava a lutar em Baku). Realmente quando as dificuldades nos surgem é sempre mais fácil pensarmos que somos diferentes dos demais, mas somos exatamente iguais e a natureza humana incorpora todos estes desafios que fazem da vida aliciante . Realmente uma boa estratégia para controlar a frustração é pensar que somos frágeis e isso incluí o sofrimento e agonia. Depois da frustração surgiu um sentimento de impotência… Durou uma fração de segundos pois da minha mente lutadora imergiu a minha vontade e certeza de que estarei de volta às competições; sou o único que acredita nisto, a minha família diz-me que o judo para mim acabou e que tenho que me focar noutro tipo de atividades. Mas eu sou determinado e focado; por mais voltas e desafios que a minha doença me coloque eu sei que eu vou conseguir ultrapassar e sair vencedor deste combate. Ajuda-me a lidar com a ansiedade ter a convicção de que vou alcançar os meus objetivos. Independentemente de tudo nós somos os nossos próprios empresários e como mentes empreendedoras temos que pensar que vamos conseguir ser mais fortes – Não te esqueças: Está tudo em ti!

(Se tiveres sugestões para futuros artigos ou caso queiras partilhar a tua história comigo emvia-me um email para celio.ucha.dias@gmail.com)

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