PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE IX

29 Set 2018
Desenvolvimento Pessoal, Pessoal
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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE IX

A minha mãe sempre foi o meu maior ídolo pelo testemunho de vida que me imprimiu desde tenra idade. Esta super-heroína teve a capacidade – conjuntamente com o meu  pai – de dar aos meus seis irmãos e a mim próprio uma rígida educação que se estendia desde as tarefas que tínhamos que fazer em casa até aos próprios estudos. Infelizmente, os meus irmãos decidiram terminar as suas carreiras académicas cedo; como resultado dessa decisão, a minha mãe obrigou-os a irem trabalhar e a darem uma contribuição monetária para casa. “Eles tinham que ir trabalhar; a olhar para a minha cara é que não iam ficar!” – recorda, entre risos, a matriarca nas nossas tardes de conversa cálida, reconfortante e inspiracional. Quando oiço estes testemunhos da minha mãe desejo que os filhos que vou adoptar tenham a oportunidade de escutar estes ensinamentos ancestrais, ensinados por uma educação num colégio de freiras em Angola quando tinha nove anos de idade: “Lá aprendemos tudo menos a sermos putas!” – marca repetidamente no seu discurso motivacional (os palavrões na boca da minha mãe indiciam a sua eloquência africana!). Nas mãos desta senhora «mãe de todos» – como a apelidou a minha professora de Filosofia Joana Rigato num artigo que escreveu – a minha carreira académica foi tomada com uma firmeza de dedo em riste!

 

A DIVISÃO FATAL

Quando entrei para o primeiro ciclo estudei na Escola  Branca do Monte da Caparica. (A minha vida é feita destas contradições entre o meu tom negro petróleo e os locais em que frequento;  a minha habitação fica no Bairro Branco do Monte da Caparica. Não é irónico? No mínimo: curioso!) Do meu primeiro dia de aulas lembro-me do pânico que senti quando o meu pai me deixou na escola e partiu; a minha sala de aulas ficava no primeiro andar e recordo-me de ter medo que as escadas me levassem para outro sítio: qualquer versão fantasmagórica do Hotel Transylvania (série de televisão da Disney). Com toda a adrenalina a correr nas veias, subi as escadas e entrei na sala de aulas. Nos primeiros dias de aprendizagem era um aluno banal e distraído: fazia as tarefas que me eram exigidas mas sem grande esforço ou particular dedicação. Isto foi assim até algo ter acontecido. À medida que as aulas foram decorrendo ocorreu uma transformação na disposição da turma: a professora separou a turma entre negros e brancos. Sim; foi isso mesmo que ouviste; como uma situação destas ocorre em pleno século XXI não sei! Como se não bastasse, exercia violência sobre os alunos negros. Lembro-me de uma colega minha que durante uma das tardes a professora chamou-a ao quadro para resolver uns cálculos aritméticos básicos. Os seus nervos congelaram a sua sabedoria; as suas pernas pareciam duas canas de bambu a baloiçar ao vento. A resposta não saía perante os gritos histéricos da minha professora; nisto, num só movimento, a docente prega-lhe um estalo com tanta energia  cinética que a aluna bate com a cabeça no quadro e urina nas calças. A turma ficou em choque: tudo o que cresceu dentro de mim foi uma revolta! Algo tinha que mudar e o que mudou foi a minha atitude. Perante a minha incapacidade de protestar, decidi que naquele momento ia estudar para ser o melhor aluno da turma. Nunca deixei que me compartimentassem em rótulos e ideias pré-definidas. A verdade é que após alguns meses de trabalho sério, tornei-me no melhor aluno da turma e os grupos étnicos foram dissolvidos.

 

UMA OPORTUNIDADE CAÍDA DO CÉU

Prossegui os meus estudos na Escola Básica 2/3 do Monte de Caparica. Entre rebeldia e boas notas segui até ao 9º ano. E aqui aconteceu algo mágico que mudou a minha vida para sempre; no final deste ano de transição para o ensino secundário tive a pauta cheia de cincos menos a Inglês que tive um quatro. Estava todo contente com a possibilidade de estudar e prosseguir os meus estudos para ser médico; no entanto, numa noite muito triste a minha mãe disse que não tinha possibilidades para eu prosseguir os meus estudos – chorámos os dois e eu fiquei devastado. Todos nós temos uma estrela guia, não é verdade? A minha revelar-se-ia na manhã seguinte quando o Padre Abel Bandeira me trouxe uma notícia: “Vais estudar no Colégio São João de Brito!” Devo admitir que a minha primeira reação foi a de ir estudar no meio de meninos mimados e chatos! O que aconteceu a seguir? Vão ter que me visitar amanhã para saber o desfeche desta história. Não te esqueças – Está tudo em ti!