PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE X

30 Set 2018
Desenvolvimento Pessoal, Pessoal
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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE X

Naquela noite em que a minha mãe me disse que eu não ia prosseguir os meus estudos devo-me ter sentido como o céu se deve sentir numa noite sem estrelas; todas as minhas constelações perderam o seu encanto e nas galáxias – onde existia um brilho sideral – pairava agora a sombra de uma carreira que se via por cumprir com um grande desencanto. Mas como vos contei ontem a minha estrelinha brilhou na imensa escuridão que se proporcionava no manto celestial e eu consegui uma oportunidade inédita: estudar no prestigiado Colégio São João de Brito através de uma bolsa de estudos. Mas como isto aconteceu? É caso para dizer que o esforço compensa sempre: nesse ano, após a conclusão dos exames finais, o padre Abel Bandeira (que fora meu professor de Religião e Moral) levou os meus exames para o Colégio no sentido de me ser adjudicada uma atenção especial fase ao talento intelectual que emanava dos meus genes negros; como resultado final dessa apreciação consegui um aval positivo e a oportunidade surgiu no início da manhã seguinte onde todas as minhas estrelas voltaram a brilhar. Como também adiantei no artigo de ontem não foi uma oportunidade acolhida com todo o entusiasmo.

 

O MUNDO NOVO

Enquanto o padre Abel me contava acerca dos detalhes do Colégio, o pânico gerou-se dentro da minha cabeça confusa e preconceituosa: o que vai fazer um puto do bairro no meio de um bando de meninos mimados? De certeza que vou ser discriminado! Quando me sinto assim aflito em tomar uma decisão falo com a minha mãe. O seu pragmatismo é o bálsamo para as minhas feridas. Como qualquer mãe diria, a minha progenitora aconselhou-me a aceitar a proposta e que o preconceito estava a ser gerado pelo meu medo de me adrentar por um terreno desconhecido. Acabei por dizer um sim receoso! Mas não me aventurei nesta jornada sozinho; iria-me fazer companhia a minha melhor amiga de infância – a formidável e fantástica Inês Pereira (atualmente hospedeira de bordo). Sentia-me protegido; enquanto a minha cara mostrava medo, a minha amiga tinha a sua cara habitual – Quem se meter comigo está feito! Não deveriam os homens proteger as mulheres? Pois bem, nesta história de encantar a Inês era o príncipe e eu era a princesa. “Oh colega (ainda hoje nos tratamos assim) por amor de Deus” – dir-me-ia sempre que os meus neurónios começavam a colidir como pequenos asteróides. Lembro-me do primeiro dia de aulas: senti-me esmagado pelas proporções do Colégio, na minha cabeça tudo era demasiado grande – uma capela enorme, corredores a perder de vista, laboratórios equipados; auditórios, campos de ténis, piscina, tudo e mais um par de botas como se costuma dizer. Fiquei a olhar para o Colégio como um burro para um palácio! As diferenças para a nossa escola básica eram abissais: os conflitos e a porrada não existiam (era tudo uma paz tirando o reboliço próprio das idades juvenis); quando os alunos se portavam mal eram gentilmente convidados a sair e estes acatavam as regras (onde estavam as respostas tortas e caras de aborrecimento?); os patifes a pedir dinheiro eram substituídos por crianças a pagar pequenos almoços com notas de cinquenta euros – quando eu na maioria das vezes não tinha dinheiro para o pagar-; haviam dois responsáveis por cada piso (aonde estavam as mil contínuas)… Podia continuar a lista de diferenças a noite toda…

 

QUEBRAR O GELO

Todos as minhas ideias pré-concebidas caíram por terra: nunca fui discriminado, existia um natural interesse dos alunos em aproximarem-se de mim (mas eu colocaria barreiras a estas tentativas até ao final do 10º Ano), os professores tinham uma genuína  paixão pelo ensino e forneciam-me aulas extra sempre que eu faltava às aulas (de outra forma teria sido impossível conciliar os estudos com a carreira da alta competição; o meu professor de Educação Física deixava-me perder peso durante as aulas). Estavam todas as condições reunidas para eu conseguir alcançar os meus objetivos. Saí do Colégio a escrever melhor, a ler livros e mais comunicativo e expansivo – contrariando a minha natureza mais introvertida. Foi uma experiência apaixonante e enriquecedora a todos os níveis e deu-me um know-how diferente no que toca à capacidade de trabalho e exigência.

 

NOVOS DESAFIOS

Sempre que uma oportunidade te bater à porta não sejas como eu. Adopta uma postura confiante e acredita nas tuas capacidades. Vais ser desafiado mas no final das contas vai valer a pena. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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