PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE I

21 Set 2018
Pessoal
psiquiatria20_50

PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE I

Psiquiatria era uma ciência que na minha subjetividade me pairava nos recônditos da mente até Agosto de 2016 em que iniciei uma viagem que culminaram em quatro internamentos em alas psiquiátricas; por vezes é necessário partir para que faça sentido voltar… É esse convite que te dirijo nos próximos 10 minutos. Aceitas o desafio?

 

NO PRINCÍPIO EXISTIA O VERBO

Pratico judo desde os 13 anos de idade; é uma modalidade transcendente e que me proporciona uma linha de integridade que me foi cunhada desde cedo pelo casamento de 48 anos dos meus pais. Eu gosto do judo porque é uma ciência desportiva que nos ensina a equalizar o nosso olhar junto da paradigma da existência humana através de sete códigos que beijam as linhas do respeito, cortesia e auto-controlo. Respondi ao chamamento desta arte marcial em Setembro de 2006. Quando iniciei a prática da modalidade – por convite da mãe da Telma Monteiro – senti a mística e responsabilidade do quimono, da mansidão do cinto negro. (Lutamos no judo de pés nus de calçado exatamente, no meu entendimento filosófico, para no princípio do combate sabermos que somos compostos pela mesma  massa e respetiva matéria). O meu corpo imortalizou na candura dos meus gestos a arte nipónica com habilidade e dedicação e, com apenas um ano de treinamento sério e comprometido, sagrei-me campeão nacional com 14 anos.

 

UMA CARREIRA EM ASCENSÃO

Depois do meu icónico rapaz magro com cinto laranja até aos joelhos, seguiu-se uma maturação mental e física que me deram um corpo ágil e forte e uma mente resiliente preparada para lidar com os desafios de uma carreira de alta competição. Com o meu pilar basilar: a minha família – caminhei no sentido do profissionalismo, o que viria a acontecer no ano de 2013 quando me juntei ao clube das Águias (Sport Lisboa e Benfica). Como testemunho do meu percurso júnior testemunham as sétimas posições no Campeonato da Europa e do Mundo Seniores e várias medalhas no circuito internacional. Neste momento era apontado como uma promessa da modalidade com aspirações olímpicas; o que se veio a concretizar três anos mais tarde quando me qualifico para os Jogos Olímpicos do Rio 2016.

 

A MANIFESTAÇÃO DA DOENÇA

Os Jogos Olímpicos foi das experiências mais fantásticas por todas as razões óbvias mas principalmente por representar Portugal; no entanto, tudo se converteria num pesadelo após a derrota por ippon contra um atleta «underdog» – embora na minha mente não cometi o erro de o subestimar; analisando o combate agora assumo que deixei que todas as contrariedades de um coração fragilizado pela ansiedade tomassem conta de mim e me levassem ao tapete. Depois do desaire passei dias infernais que duram até aos dias de hoje. No início sentia como se alguém muito íntimo da minha família tivesse morrido: chorava compulsivamente, acordava ao meio da noite com falta de ar e sentia um profundo ardor no sulco da minha garganta. Passados alguns dias, explicaram-me que tinha tido um surto psicótico: sintomatologia de que viria a sofrer um ano mais tarde após o Campeonato do Mundo de Budapeste 2017 – em que me classifiquei em 9º lugar. Manifesta-se tudo como um conjunto de alucinações e delírios que me deslocam para uma realidade paralela em que evidencio sintomas persecutórios. Foi-me diagnosticada uma síndrome esquizo-compulsiva. Tentei-me suicidar duas vezes!

 

UM JANEIRO QUE DURA ATÉ AO VERÃO

No início deste ano comecei a sentir sintomas diferentes: comecei a ouvir vozes de caráter homicida dentro da minha cabeça. No meu panorama mental passavam-me imagens a matar os meus entes mais queridos e a proporcionar-lhes um sofrimento patológico. Falei com a minha psiquiatra – Dra Filipa Moutinho – e iniciei um tratamento com um fármaco anti-depressivo. Os meses passaram e as vozes intensificavam-se:

“Vais matar a tua mãe porque ela é uma puta. És o Deus do Universo. Vendeste-me a tua alma e agora vais pagar. És um manipulador de merda, paneleiro, filho da puta. Porque não te matas?”

Este é um pequeno exemplo das coisas que eu ouvia (e ainda oiço) dentro da minha cabeça. Sempre que me aproximava de alguém a voz dizia que eu ia matar essa pessoa: o coração explodia dentro do meu peito, suores frios percorriam o meu corpo e uma agonia atroz protagonizavam os sentimentos da minha realidade. Dia e noite, segundo após segundo, uma e outra vez, esta voz decadente consumia-me as entranhas! No dia 5 de Agosto para proteger as pessoas ao meu redor incorri em violência contra mim próprio no sentido de virar o jogo contra mim: cortei-me, deitei-me na linha do elétrico e fui para a via rápida para ser atropelado…

 

UMA FAMÍLIA DE OURO

Em todos estes momentos contei com o apoio da minha família e do meu namorado. Sei que este relato é causa impacto! Tudo o que posso dizer é que sobrevivi… Amanhã conto-vos como foi este meu Verão.

  • Blogue
  • Célio Dias
  • Days of Light and Fights
  • Pessoal