REVIEW: “FALE MENOS. COMUNIQUE MAIS” – CARLA ROCHA

27 Mai 2016
Livros
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REVIEW: “FALE MENOS. COMUNIQUE MAIS” – CARLA ROCHA

LEITURA: O MEU GINÁSIO MENTAL

Gosto bastante de ler: é um estímulo à criatividade e acredito que esta actividade melhora a minha performance nos treinos e na competição (esta é apenas uma opinião pessoal, nunca pesquisei se tem evidência científica!) Da minha experiência como atleta, associo vários dos meus melhores momentos de prática desportiva e resultados a períodos em que me encontrava com um maior estímulo intelectual.

Ler para mim é fundamental. É tão importante como os treinos de judo ou as sessões de preparação física pois exercito e preparo o que é essencial em competição: a mente. Os livros para mim são um ginásio espiritual onde as palavras, ideias e cenários que leio me inspiram e refinam as minhas capacidades mentais.  Durante um processo de leitura, aproximo as minhas experiências pessoais à visão dos autores e fundamento as minhas concepções da realidade. Numa dessas sessões na minha sala de exercício mental, sentei-me com o “Fale menos. Comunique mais” ao colo; fortaleci a minha capacidade de comunicação e, agora, porque considerar uma leitura indispensável, venho falar-vos como ele vos pode ajudar a melhorar as vossas relações pessoais – tal como prometi no artigo de Terça-feira.

QUANDO COMUNICAR BEM IMPORTA

Comunicar não é fácil e exige um processo de entrega ao outro – um espírito de aceitação perante as ideias partilhadas durante o debate de opiniões. Uma das grandes lições que aprendi com a autora do livro, Carla Rocha, foi que a comunicação pressupõe uma condição: vulnerabilidade. Quando falo em vulnerabilidade, falo de transparência e assertividade – duas das estratégias sugeridas no livro. Não devemos ter medo ou vergonha de comunicar com sentimento ou até mesmo expor as nossas experiências pessoais. Só desta forma é possível nos ligarmos às outras pessoas, à nossa audiência, criando empatia e garantindo, desta forma, que a partilha da nossa mensagem é genuína.

No “Fale menos. Comunique mais” encontramos 10 estratégias para aprimorarmos a nossa capacidade de comunicação. Um livro de leitura fácil, bem escrito e bastante ilustrativo. O seu título apresenta um falso paradoxo: Será que sempre que falamos estamos realmente a comunicar? Eis o que defende a Carla:

“Todos os problemas de comunicação são um problema de compreensão. As pessoas só compreendem a informação que reconhecem.”

Através da frase anterior, pode-se compreender que o processo de comunicação está assente no entendimento bilateral, ou seja, só estamos a comunicar se houver um entendimento mútuo do enunciado que está a ser partilhado. Uma tarefa exigente mas que, quando treinada, pode-se tornar uma ferramenta muito efetiva. Quando iniciei os meus discursos enquanto keynote speaker estava sempre bastante nervoso; com o passar do tempo, tenho cada vez mais confiança nas minhas capacidades. Treinar a comunicação importar pois muitas vezes temos ideias que podem ser revolucionárias, fazer a diferença, e, por falta de estrutura, perdem todo o conteúdo. Quantas vezes não conseguimos expressar-nos da forma correta? Quantas vezes não nos sentimos compreendidos? Este livro tem estratégias com resultados reais. Enquanto formando da Carla, posso realmente afirmar que todas estas estratégias são válidas e fazem a diferença no momento em que desejamos transmitir os nossos pensamentos.

AS ESTRATÉGIAS

É notável a generosidade da autora no seu processo de partilha pois, segundo as pessoas que lhe são mais próximas, neste seu trabalho existe a trasmissão de toda a experiência que adquiriu durante a sua carreira na rádio e enquanto formadora. Mas não são necessárias quaisquer confirmações: de facto, sente-se a entrega – uma abertura de vida – por parte da Carla Rocha neste livro. Nele fazemos uma viagem pela sua experiência profissional (inspiradora a sua história de como alcançou o seu posto na RFM), passando por alguns detalhes da sua vida familiar (bastante interessante a história de como dentro do seu seio familiar conseguiu colocar todos os membros a falarem uns com os outros); temos ainda acesso a testemunhos e exemplos de boas práticas comunicativas. De todas as estratégias no livro partilhadas, principalmente por já ter iniciado o meu caminho para me tornar num melhor comunicador, estas são as estratégias que destaco nesta obra:

Estratégia nº 2: “Escutar: ouça mais do que fala”

Durante a minha formação com a Carla no âmbito do programa Atletas Speakers promovido pelo Comité Olímpico de Portugal, aprendi que um bom comunicador é aquele que ouve. Da sua experiência, a autora realça a importância da escuta ativa nas suas entrevistas: existe um processo de preparação mas apenas ao escutar o seu entrevistado é que se apercebe de um pormenor que faz a entrevista ganhar uma nova força. A escuta é essencial no processo de comunicação! Podem ver neste artigo que escrevi algumas dicas para se tornarem “bons ouvintes”. O livro explora mais profundamente esta temática, explicando os seus benefícios e com a recomendação de exercícios (inspiradora a história de John Fracis que ficou 17 anos sem falar! Porquê? Já têm uma boa razão para comprarem o livro, uma história absolutamente brilhante!)

Estratégia nº3: “Simplicidade: fale português, fuja do «compliquês»”

Quando descobri que a escrita era uma das minhas paixões, procurava expor nos meus textos as palavras mais difíceis que conhecia para exibir o meu conhecimento da língua portuguesa. Ficava orgulhoso quando me diziam: “Não percebo nada do teu texto!”; neste momento, inflamava e pensava: “Sou mesmo bom!” Não poderia estar mais enganado: não estava a comunicar. Actualmente, faço um esforço claro para reduzir o tamanho dos meus textos e focar-me no essencial. Dica da Carla:

“Leia em voz alta tudo o que escreve e faça as alterações necessárias até que a mensagem se torne clara, simples e memorável.”

Estratégia nº 4:  “Conte mais histórias: abra o seu livro, revele-se”

Para mim esta é a dica que me faz mais sentido em todo o livro. Descobri que é através das histórias, das nossas histórias, que tornamos a nossa mensagem única. Na primeira preleção que fiz após concluir o programa, foquei-me em fundamentar cada um dos meus argumentos com dados científicos. Quando mostrei à Carla o tamanho da minha exposição, uma expressão de perplexidade invadiu-lhe o rosto: “Tens que pôr mais Célio!” Depois de cortar muita da informação inicialmente pensada, após a minha intervenção, a opinião da audiência era consensual: “Deverias colocar mais histórias da tua carreira desportiva”. Nesta altura, percebi que aquilo que as pessoas estão interessadas em ouvir de nós são as nossas histórias pessoais; ninguém se vai recordar de datas, gráficos ou números de estudos. Como me disse a Carla: “Tens que ter a certeza que a tua apresentação não poderia ser feita por mais ninguém.” Como fazê-lo? Relatar episódios íntimos em que aprendemos uma lição; descrever o percurso de carreira/vida de alguém que admiramos e que encerra uma moral. É nesta partilha que nos ligamos às nossas audiências. Vamos apimentar os nossos discursos com mais histórias?

“[Q]uanto mais pessoal é uma história mais universal ela pode tornar-se.”

VAMOS PARTILHAR!

Todos nós temos histórias inspiradoras, uma voz que merece ser ouvida. Que tal transmitir as nossas ideias de uma forma carismática e estruturada? Muitas mensagens se perdem porque não somos capazes de traduzir os nossos pensamentos por miúdos, ou seja, em palavras que os nossos ouvintes são capazes de perceber. A comunicação é essencial e, num mundo cada vez mais tecnológico, é uma capacidade que exige dedicação e trabalho. Não existem aplicações ou atalhos para a melhorar: a única forma é realmente conversarmos cada vez mais. Quem sabe se algum de vocês tem a próxima grande ideia que irá revolucionar o mundo? Será que sabem como comunicá-la devidamente no sentido de a encaminhar ao sucesso? A Carla Rocha com este livro pode ajudar-vos nesse processo. Comprem-no e mergulhem neste ginásio da comunicação; fortaleçam os vossos músculos e espalhem mensagens inspiradoras (Todos nós precisamos de inspiração, nunca é demais!) Vais aceitar o desafio?

“É durante uma conversa que tomamos consciência das nossas fraquezas, dos nossos pontos fortes e estreitamos ligações.”


FOTOGRAFIA

Ana Rita Lima – colaboradora no “Days of Light and Fights”

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