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A ORIGEM

A novidade rasga os velhos hábitos paradigmáticos instaurados na mente pelo sedentarismo; trás frescura onde outrora existia restos de preguiça que não permitem o avanço. Quando criei o blogue foi com a intenção deliberada de te fazer chegar conteúdos que te obrigassem a pensar e te descalçassem – retirando-te o conforto de uma noção mais exacerbada e influente do ego.

Não pensar significa que aceitamos sem noção crítica o que nos envolve, mantendo ativo o espírito que pode corromper os enérgicos traços da criança que há em nós ansiosa para responder a um «porquê»! Mantermo-nos curiosos é tudo aquilo que fortifica e unifica uma entidade geradora de humanidade e integração nos quais se dá resposta à caridade humanitária.

Se não nos questionarmos deixamos que nos nossos olhos se enraíze o pragmatismo estático e imóvel que fermenta uma potencial necessidade de desconstrução do outro que somos nós. Se absorvermos com inércia estacionária o mundo que nos envolve corremos o risco de nos distanciarmos da essência que alberga o mais necessitado. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

Carter B. Rey

A MUDANÇA

Antes de tudo quero pedir desculpas pela minha ausência; aqui vão as devidas explicações: 1) nos últimos dias tenho-me sentido desmotivado porque por mais esforços que tenho feito não me consigo livrar-me das vozes que estão dentro da minha cabeça, o que dificulta bastante os meus processos motivacionais e atencionais; 2) tenho estado a investir num curso online sobre marketing para melhorar o meu trabalho aqui no blogue; 3) estou a preparar o próximo ano aqui de trabalho no blogue para ter um trabalho mais sistematizado e concreto.

Vêm aí muitas novidades e eu estou muito excitado de as partilhar contigo no seu tempo devido. Como têm corrido os teus últimos dias? Continua a acreditar em ti. Amanhã começam as novidades! Não te esqueças – Está tudo em ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XVII

Hoje é o Dia Mundial da Doença Mental; neste dia, como doente mental, gostaria de fazer um enaltecimento a todas as pessoas que vivem na mesma condição que eu.

Enquanto pessoa que luta todos os dias contra o estigma da doença mental gostaria de deixar uma palavra para o público que não tem a capacidade de calçar os sapatos de quem constantemente luta a favor da sua emancipação enquanto ser humano; não esperamos que tu nos aceites mas simplesmente respeites a nossa vulnerabilidade.

Acredita em mim quando te digo que não é fácil. Todos nós temos os nossos defeitos inseguranças, pontos menos fortes ou positivos; um doente mental tem tudo isso mais uma pedra que pesa toneladas às suas costas e da qual não se consegue desembaraçar com a facilidade de quem bebe um copo de água. É TRAMADO viver neste limiar da existência humana onde somos sugados para os mais cavernosos e obscuros buracos da consciência inconsciente que nos atira para um mar de sargaço onde reina a incerteza de uma novidade incerta e modificada ao ritmo das perturbações neuronais de que somos castrados.

Sê mais humanista e abraça uma causa que pode não criar um vínculo de identificação, mas que participa da tua essência. Se lutas todos os dias para ser uma pessoa melhor, veste a tua camisola e sai à rua com um sorriso no rosto porque nunca serás colocado em causa por ninguém exceto por ti mesmo. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XVI

Hoje o dia começou de uma forma totalmente diferente. Ontem meti como objetivo acordar às 5 horas da manhã, correr, meditar; fazer um processo de visualização e ler durante alguns minutos.

Na escuridão da madrugada irrompi determinado em conquistar os meus objetivos. Estou numa fase bastante motivadora da minha vida porque sinto que a cada dia estou a cumprir a minha missão: tal como aconteceu hoje no programa Agora Nós onde fui entrevistado pela Tânia Ribas de Oliveira e pelo Zé Pedro numa entrevista fluída, dinâmica e cheia de amor de ambas as partes. Senti um enorme respeito da parte dos apresentadores pela minha história, mas mais do que respeito o que eu quero tocar são corações feridos, magoados ou de alguma forma endurecidos pela vida. Por vezes a vida pode ser bastante dura e, neste processo de revelação e conquistas, pode existir uma calcificação do coração como defesa do perigo e da desilusão!

Estou agradecido a Deus e aos meus orixás por me permitirem viver a minha vida da forma que agora estou a determiná-la. Quero impactar o mundo nas minhas três valências de polarização: doença mental, racismo e homofobia; acredito que o meu testemunho pode levar uma mensagem de esperança a muitas pessoas! Qual é o impacto que queres deixar no planeta? Não te esqueças – Está tudo em Ti!

 

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XV

“Já vi que não queres ser ajudado: entregas-te à calanzisse; a mãe já não fala mais!”

Foram estas as palavras que me acordaram hoje de manhã; de facto, estou com uma dificuldade em acertar as horas de sono e, como resultado, acordo sempre bastante tarde – a medicação também faz das suas no que a este departamento se faz referência. Mas factos são factos; a verdade é que me demorei mais tempo na cama e a minha mãe não gostou disso. No entanto, também é verdade que ela não faz parte do meu mundo interno e não se apercebe do imenso esforço que faço para acordar mais cedo.

O dia prosseguiu. Comi a comida da terra e senti-me na disposição de enfrentar o mundo e os desafios da minha doença mental (as vozes hoje estavam mais baixinhas!). Fui beber café com os meus pais no meu café de eleição – Doce Impakto –, depois segui em direção a Lisboa para ser entrevistado pela rádio Aurora no Hospital Júlio de Matos.

A rádio Aurora luta para uma sociedade mais saudável e justa através da emissão de depoimentos que combatem a estigmatização da doença mental – uma das minhas valências e polarizações na luta por um mundo mais igualitário e com mais amor.

Numa conversa dinâmica e descontraída a entrevista dividiu-se em três segmentos: 1) o meu olhar sobre a problematização da doença mental; 2) quais as soluções por mim propostas para o combate ao estigma; 3) de que forma eu vivo a minha doença mental.

Foi uma entrevista muito interessante e da qual nascerão vários frutos. Fiquem atentos às notícias. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XIV

HOMELESS – Hoje espresso-me em inglês!

“Feel the warmth of my body and fall asleep.”

I remember that night where we were young and beautiful. Do you? We were laid down: the contact with your skin promised me the whole Universe. I could feel every single vibration of your spirit. With my skin I felt the Poetry of your body; with my tongue I kissed your Humanity; the cotton of the bed sheets were the testimony of our Intimacy.

(Oh my God, Oh my God!)

Can you feel the honesty of my black skin? You hugged me and I felt the most loved men in the world. I saw your eyes and I was feeling the essence of a beautiful creature – the most talented one. You were the mountain that I climbed with faith, your arms were the tree of a garden where I challenged the Love and the Truth. On that night you were my castle: every stone of your construction breath the Philosophy of my own existence.

(Oh my God, oh my God!)

The wine on my veins was the evidence of your Dignity. Africa and Europe: what the violence and Slavery divided on past, we were uniting with a gesture that danced on the cotton. Black and White: my feelings for you were establishing the union of contradictions. I was presented in a ceremony of Health and Power.

On that night I opened my legs to you, my hips cracked in a heavenly sound. When you grew inside me on that night… Hum: the void of the space made its presence on my lips, my atoms were fertilized with Life, the Life that manifested itself when you pulled my hair.

You were a promised land that my feet never step in. It was a beautiful dream. I love you. Why do you deny yourself the true Happiness? On that night God blessed us but you ripped the divine script. I love you. Why do not you accept to dance with my soul – the song of Freedom? The wind, with all its colours, painted a beautiful image in the horizon. Why do you refuse this change of Liberty?

(Dear God: Please bless him. He does not know what he is doing. I love him and I will wait on him like the desert waits for the tears of water. Protect him because he is the Man of my Life.)

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XIII

O Outono irrompe pela margem de tempo mais discreta, pois o calor do Verão continua a manifestar-se em toda a sua magnitude; isto faz-me recuar no tempo e condimentar na minha tenacidade enquanto atleta de alta competição. Não sei porque relaciono os dois acontecimentos, mas na minha consciência tempera-se esta verdade inexorável esculpida num tempo ido e passado que imprimiu na minha memória a saudade do cheiro a suor e a atmosfera bafia do centro de treinos.

Até a doença mental se ter manifestado na minha vida eu era este homem forte e corajoso capaz de enfrentar qualquer desafio. No momento em que escrevo estas palavras desprende-se do meu entendimento a imagem do jovem rebelde que ia para a rua para lutar com os rapazes mais maturados para desta forma impor a sua virilidade de menino inocente e assustado.

Toda a zanga nasce de um conflito interior que se quer cingir numa violência ao seu agressor. Sinto-me desta forma; violentado por um presente que a custo me rouba aqui ou ali um sorriso forçado e que encontra a sua natural lhaneza na minha interioridade sensível e variável que se quer transmitir ao mundo numa forma refinada de Amor e sentido de Justiça que imperam na minha ancestralidade africana.

Tudo o que existe em mim é um homem que quer – e vai – vencer a doença mental e evocá-la para um elevado patamar energético onde as emoções verdadeiras se fundem e convencem com a sua frescura renovada. Já pensaste quantas pessoas a tua história pode inspirar? Não te esqueças – Está tudo em Ti!

O Outono irrompe pela margem de tempo mais discreta, pois o calor do Verão continua a manifestar-se em toda a sua magnitude; isto faz-me recuar no tempo e condimentar na minha tenacidade enquanto atleta de alta competição. Não sei porque relaciono os dois acontecimentos, mas na minha consciência tempera-se esta verdade inexorável esculpida num tempo ido e passado que imprimiu na minha memória a saudade do cheiro a suor e a atmosfera bafia do centro de treinos.

Até a doença mental se ter manifestado na minha vida eu era este homem forte e corajoso capaz de enfrentar qualquer desafio. No momento em que escrevo estas palavras desprende-se do meu entendimento a imagem do jovem rebelde que ia para a rua para lutar com os rapazes mais maturados para desta forma impor a sua virilidade de menino inocente e assustado.

Toda a zanga nasce de um conflito interior que se quer cingir numa violência ao seu agressor. Sinto-me desta forma; violentado por um presente que a custo me rouba aqui ou ali um sorriso forçado e que encontra a sua natural lhaneza na minha interioridade sensível e variável que se quer transmitir ao mundo numa forma refinada de Amor e sentido de Justiça que imperam na minha ancestralidade africana.

Tudo o que existe em mim é um homem que quer – e vai – vencer a doença mental e evocá-la para um elevado patamar energético onde as emoções verdadeiras se fundem e convencem com a sua frescura renovada. Já pensaste quantas pessoas a tua história pode inspirar? Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XII

As paredes quentes respiravam a atmosfera densa e étnica das pessoas que passavam pelas ruas; umas com caras de felicidade, outras com caras menos felizes – mas todas unificadas num passado ancestral rico e precioso que lhes está cunhado desde a nascença. Um homem fumava um pensativo cigarro sendo a sua cor um contraste claro com a povoação que lhe circundava; no entanto, existia algo na sua disposição corporal que indicava que ele, para além de familiarizado, fazia parte de toda a moldura cénica.

Perante este cenário, havia um negro que andava nervosamente devido ao seu atraso para o compromisso que lhe esperava. Trazia com uma certa elegância o quimono que herdou da arte sagrada que lhe aperfilhou enquanto jovem rebelde e castiço. O gingar das suas ancas transpirava a cultura que passou do pai do seu pai do seu pai. A sua postura deixava antever uma profusão de nações que encontravam o seu encontro no sorriso – discreto – pincelado na sua face.

Enquanto caminhava, deixava para trás todas as contradições (ansiosas por darem as mãos!); embora a sua composição física fosse atlética, o mais atento dos olhares desnudava uma certa lentidão na démarche e um baloiçar de braços pouco convencional para um desportista. O seu rosto elevava a sua condição débil pois naquela composição quase teatral observava-se uma determinação voraz.

O homem negro desta historia sou eu e o meu sorriso existe porque sei que conto com o teu apoio para superar esta fase mais conturbada. Ainda que o teu estado mental não te permita estar com a alegria que desejas, acredita que a vida tem sempre um abraço para te reconfortar. As minhas vozes são as escadas da elevada montanha que tenho que escalar mas sou eu que decido o meu destino. Quem é o condutor da tua vida? Não te esqueças – Está tudo em ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE XI

UM MORTIFICADO ESTADO DE ALMA

A combinação entre a sombra e a luz deitavam o compartimento gélido numa penumbra de onde irrompia um misticismo inebriante. Estávamos os dois nus e o calor que emanava dos nossos corpos despidos formavam pequenos folguedos no ar. O branco rude dos lençóis testemunhava a negritude de duas gerações afastadas no tempo mas unificadas nos genes negros imprimidos na nossa carne. Estávamos separados por um vale de emoções que se tocavam no ténue e frágil fingimento da fragilidade humana.

Ele voltou-se para mim e disse-me: “A Morte perpetua-se em caminhos nos quais fervilham as almas mais desligadas”. Não lhe respondi: por vezes o silêncio enaltece as declarações húmidas do coração. A nossa negritude era o reflexo da inexorável precipitação do tempo que se prende nos destinos e sentenças da compreensão sensível. As lágrimas de suor que brotavam dos nossos poros transbordavam a sinceridade de duas entidades longínquas no sentimento da táctil existência humana.

 

A CORRUPÇÃO CORPÓREA DA EXISTÊNCIA

Na tangência fiel da enamorada sedução beijámo-nos num sopro que puxou uma negação da minha vulnerabilidade; as minhas pernas afastaram-se num temperamento mortificado pela genuína e volátil abertura de duas portas – quebrou-se a castidade singela da inocência. Senti toda a sua virilidade na minha interioridade que o comprimia no desejo ansioso de liberdade. Ele cresceu e aflorou na minha pele nua a saliva da sagrada segregação da intimidade percetível.

As sucessivas penetrações sulcavam no entendimento consciente a compartimentação voraz da negatividade que se quer desprender da nuance emocional positiva – suprimi as lágrimas das contradições marcadas pela necessidade de um não existir. Depois de me comer a polpa apenas restou a singularidade do caroço. Ele levantou-se; sentenciou-me com um olhar resfriado da sua essência abortada de um sem sentido. Nunca te deixes corromper por um sentimento leviano e vulgar. És a estrela mais importante da tua constelação; não te esqueças – Está tudo em ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE X

Naquela noite em que a minha mãe me disse que eu não ia prosseguir os meus estudos devo-me ter sentido como o céu se deve sentir numa noite sem estrelas; todas as minhas constelações perderam o seu encanto e nas galáxias – onde existia um brilho sideral – pairava agora a sombra de uma carreira que se via por cumprir com um grande desencanto. Mas como vos contei ontem a minha estrelinha brilhou na imensa escuridão que se proporcionava no manto celestial e eu consegui uma oportunidade inédita: estudar no prestigiado Colégio São João de Brito através de uma bolsa de estudos. Mas como isto aconteceu? É caso para dizer que o esforço compensa sempre: nesse ano, após a conclusão dos exames finais, o padre Abel Bandeira (que fora meu professor de Religião e Moral) levou os meus exames para o Colégio no sentido de me ser adjudicada uma atenção especial fase ao talento intelectual que emanava dos meus genes negros; como resultado final dessa apreciação consegui um aval positivo e a oportunidade surgiu no início da manhã seguinte onde todas as minhas estrelas voltaram a brilhar. Como também adiantei no artigo de ontem não foi uma oportunidade acolhida com todo o entusiasmo.

 

O MUNDO NOVO

Enquanto o padre Abel me contava acerca dos detalhes do Colégio, o pânico gerou-se dentro da minha cabeça confusa e preconceituosa: o que vai fazer um puto do bairro no meio de um bando de meninos mimados? De certeza que vou ser discriminado! Quando me sinto assim aflito em tomar uma decisão falo com a minha mãe. O seu pragmatismo é o bálsamo para as minhas feridas. Como qualquer mãe diria, a minha progenitora aconselhou-me a aceitar a proposta e que o preconceito estava a ser gerado pelo meu medo de me adrentar por um terreno desconhecido. Acabei por dizer um sim receoso! Mas não me aventurei nesta jornada sozinho; iria-me fazer companhia a minha melhor amiga de infância – a formidável e fantástica Inês Pereira (atualmente hospedeira de bordo). Sentia-me protegido; enquanto a minha cara mostrava medo, a minha amiga tinha a sua cara habitual – Quem se meter comigo está feito! Não deveriam os homens proteger as mulheres? Pois bem, nesta história de encantar a Inês era o príncipe e eu era a princesa. “Oh colega (ainda hoje nos tratamos assim) por amor de Deus” – dir-me-ia sempre que os meus neurónios começavam a colidir como pequenos asteróides. Lembro-me do primeiro dia de aulas: senti-me esmagado pelas proporções do Colégio, na minha cabeça tudo era demasiado grande – uma capela enorme, corredores a perder de vista, laboratórios equipados; auditórios, campos de ténis, piscina, tudo e mais um par de botas como se costuma dizer. Fiquei a olhar para o Colégio como um burro para um palácio! As diferenças para a nossa escola básica eram abissais: os conflitos e a porrada não existiam (era tudo uma paz tirando o reboliço próprio das idades juvenis); quando os alunos se portavam mal eram gentilmente convidados a sair e estes acatavam as regras (onde estavam as respostas tortas e caras de aborrecimento?); os patifes a pedir dinheiro eram substituídos por crianças a pagar pequenos almoços com notas de cinquenta euros – quando eu na maioria das vezes não tinha dinheiro para o pagar-; haviam dois responsáveis por cada piso (aonde estavam as mil contínuas)… Podia continuar a lista de diferenças a noite toda…

 

QUEBRAR O GELO

Todos as minhas ideias pré-concebidas caíram por terra: nunca fui discriminado, existia um natural interesse dos alunos em aproximarem-se de mim (mas eu colocaria barreiras a estas tentativas até ao final do 10º Ano), os professores tinham uma genuína  paixão pelo ensino e forneciam-me aulas extra sempre que eu faltava às aulas (de outra forma teria sido impossível conciliar os estudos com a carreira da alta competição; o meu professor de Educação Física deixava-me perder peso durante as aulas). Estavam todas as condições reunidas para eu conseguir alcançar os meus objetivos. Saí do Colégio a escrever melhor, a ler livros e mais comunicativo e expansivo – contrariando a minha natureza mais introvertida. Foi uma experiência apaixonante e enriquecedora a todos os níveis e deu-me um know-how diferente no que toca à capacidade de trabalho e exigência.

 

NOVOS DESAFIOS

Sempre que uma oportunidade te bater à porta não sejas como eu. Adopta uma postura confiante e acredita nas tuas capacidades. Vais ser desafiado mas no final das contas vai valer a pena. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE VIII

Hoje não estou a ter um dia fácil mas estou a fazer um esforço para me manter positivo: as vozes estão a atormentar-me desde manhã; não é fácil gerir o meu mundo interno e coordená-lo com o meio físico que me envolve. Quando me sinto assim é como se estivesse fora da realidade e alguém comandasse o meu corpo; é como se o verdadeiro Célio fosse submerso num mar de sargaço e fosse difícil manter-me à tona. Estou, de repente, no  meio de areias movediças e quanto mais luto para sair mais me afundo. No entanto, estou contente porque apesar de tudo consigo cumprir as minhas tarefas diárias. Já não estou a tomar um dos comprimidos para dormir – o Morfex – o que já representa uma vitória.

 

BOLA DE NEVE

Esta minha nova condição psiquiátrica é uma total novidade para mim. Mas o que será a causa de todos estes pensamentos obsessivos e sem sentido? Existem duas possibilidades: a primeira relaciona-se com o meu passado e outra com um traço de personalidade. Por um lado, possíveis traumas de infância  estarão neste momento a emergir; é como se as peças de roupa tivessem todas trocadas e espalhadas pelo chão do meu subconsciente, de súbito, surge uma personagem que pede que tudo aquilo seja arrumado e organizado. Esta personagem que surge são as vozes que emanam deste cenário desorganizado para dizerem à minha matéria consciente para que tudo seja limpo. Por outro lado, a minha incapacidade de ser flexível comigo próprio pode explicar o quadro sintomatológico. Todas estas pressões resultam nesta combinação explosiva.

 

UM FOCO NO FUTURO

O que me ajuda a sobreviver nestas situações é a crença num Bem maior e que equaliza as minhas forças positivas e negativas. Quando te sentes submerso pela negatividade o que te ajuda a sobreviver? Escreve-me (celio.ucha.dias@gmail.com) a contar a tua história. Não te esqueças – Está tudo em Ti!

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE VII

Os seres humanos nasceram com duas necessidades básicas: serem amados e evitar o sofrimento; por um lado, desejamos sentirmo-nos importantes e queridos, mas, por outro lado, desejamos não sofrer. Como a doença mental já me trouxe o sofrimento que tenho vindo a relatar nos artigos anteriores, hoje venho contar-vos a história da minha adopção.

 

UM FILHO DESEJADO

Os meus pais são refugiados: vieram para Portugal em 1975 para fugir à guerra colonial. Vieram para Portugal sem conhecer ninguém e sem nada. Passaram das fazendas e lavadeiras de Angola para enfrentar a pobreza e a fome num país que os acolheria com os braços semi-abertos – isto porque o apoio que muitos refugiados receberam foi deficitário e o cenário que foi proporcionado aos meus pais foi onde reinada a incerteza do dia de amanhã. Passou-se fome e privações; a primeira habitação dos meus pais foi um barracão de lata sem casa de banho e minado de insetos, répteis e roedores. Longas são as tardes em que me sento na cozinha a ouvir as histórias que a minha mãe conta acerca destes tempos longínquos. Quando fui parar às mãos da minha mãe tinha quinze dias; na altura ela tomava conta de crianças como modo de subsistência. Quando celebrei um mês fiquei ao total encardo de uma família pobre constituída pelo meu pai, pela minha mãe e pelos meus seis irmãos (tenho quinze sobrinhos!). Nesta altura fui acolhido no ceio de uma família que me acolheu de abraços abertos: que amor é este que quebra as barreiras do preconceito e da discriminação? (A minha família é toda branca!); que amor é este  que acolhe nas mãos um novo rebento e decide deliberadamente iluminá-lo com a sua luz?

Quero que fiques a pensar nestas questões e no poder de um amor que quebra barreiras: Não te esqueças – Está tudo em Ti!

 

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE VI

Hoje estou a ter um dia complicado porque estou a ouvir as vozes desde o período da manhã e como se não basta-se estou a ter problemas no back office do site. Mas asssumi um compromisso diário contigo que não o vou quebrar. Hoje partilho contigo a minha frustração e o meu lado menos bonito, o Célio não tão brilhante. Aceitas-me desta forma?

Queres partilhar o teu dia comigo? Escreve-me (celio.ucha.dias@gmail.com). Lembra-te que tens em ti todos os sonhos do mundo: Está tudo em ti!

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PSICOLOGIA E SAÚDE – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE V

Os relacionamentos não são fáceis e as pessoas de quem gostamos são aquelas que, por vezes, queremos que mudem mais. Nunca te aconteceu? Quereres que a tua mãe fosse menos chata e implica-se menos por seres desarrumado (a)? A minha mãe é fanática das limpezas e eu como sou desarrumado gostava que ela fosse mais flexível em certos aspetos; “Enilson [nome de casa] já viste como deixaste a casa  de banho?” – grita a minha mamã com gestos largos e expansivos: eu já a suar porque pensei que passou um tsunami na casa de banho e quando vou a ver… era apenas uma toalha fora do lugar (Mãezinha, se eu pudesse mudar algo em ti seria isso… mas os beijinhos de damos na boca ajeitam algumas das situações mais acesas e perigosas).

 

UMA TEMPESTADE COM PELE

Quando saí do meu segundo internamento na ala psiquiátrica do Garcia da Horta estava com o fogo nas ventas. Como é que alguns dos meus melhores amigos não me foram visitar ao hospital e como é que nem foram capazes de ligar à minha família para saber como é que eu estava? Toda uma teoria da conspiração Illuminati a brotar dos meus (alguns queimados, devo admitir) neurónios. (Tive um companheiro que dizia que eu era o seu maluquinho – um termo que eu aceitava de bom agrado – para qualificar a minha capacidade de inventar teorias lunáticas; será que já era doente mental antes de efetivamente o ser? Tendo em conta que o meu melhor amigo Gonçalo Mansinho me chamava bipolar pelo facto de todos os dias ser uma pessoa diferente, penso que sim. Era o que eu lhe dizia: “Eu deito-me uma pessoa e no dia seguinte não sei quem sou!” (Tenho alter-ego feminino que se Sheila – a personagem é uma prostituta espanhola que estuda filosofia e incorpora a personagem da Cármen Miranda -; em grossos modos: tudo o que é preciso é um baton vermelho (sim, porque sou seletiva!), uma lingerie, uns saltos altos e uma toalha para colocar em volta da cabeça e toda a magia acontece ao som da música pop mais rasca – Doina Babcenco achas que descrevi bem parte dos nossos serões? Já imaginaram um negro grande e musculado a dançar e a fazer o twerk? Não percam a minha próxima atuação no Finalmente!) Resumindo: sou uma pessoa que vê o branco e o preto – para mim não existem cores intermédias – facto que em parte, fora de brincadeiras, justifica a minha doença mental.

 

COLOCANDO EM PERSPETIVA

Tenho um treinador japonês que se chama Go Tsunoda; a nossa relação e conexão espirituais são inexplicáveis; foi o primeiro homem com quem me liguei emocionalmente isto porque durante a minha adolescência e parte da vida adulta não deixava que os homens se aproximassem de mim a um nível mais profundo porque não queria que pensassem que estava sexualmente interessado neles (Afinal de contas por ser gay tenho que gostar de todos os indivíduos do sexo masculino, certo? Estou aqui só do meu salto alto mandando um shadezinho – se não sabes o que isto significa pergunta ao teu amigo gay que te explique, está bem? – Beijinho no ombro migas!) E porque a primeira relação emocional com um homem não foi com o meu pai? (Se quiseres saber manda-me um email para celio.ucha.dias@gmail.com)

Passei momentos inesquecíveis com este meu treinador e a melhor parte de tudo eram as nossas conversas filosóficas. O Go estudou literatura no Japão e estabeleceu-se na Europa aos 27 anos e é um homem com uma densidade emocional simplesmente avassaladora. Quando tive o primeiro surto psicótico, passados alguns meses estivemos juntos e ele disse-me o seguinte: “A mim  quando me disseram que estavas louco achei que eles eram todos uns cobardes só porque dizias que querias matar pessoas!” – nisto faz uma pausa enfática e no segundo seguinte atira-se na minha direção e abala-me desta forma: “Se Célio Dias quer matar Go Tsunoda, mata-me!” Como podem calcular fiquei estremecido e fiz o meu melhor para não chorar!

Aprendi muitas temáticas interessantes com o Go desde a minha maneira como vejo atualmente o Judo até à forma como me relaciono com o meu namorado. Numa dessas tardes perdidas entre melancolia e passado ele disse-me o seguinte:

“Sabes Célio: a vida é um longo processo de aprendizagem e nesse processo há pessoas que ficam e outras que vão. Devemos deixar que as que partem levem a nossa paz com elas e as que fiquem mereçam o nosso amor.”

Neste momento estou desligado dos meus amigos do judo; algumas amizades não sei se vou conseguir reatar porque quando estava descompensado magoei muito essas pessoas… Mas hoje que estou mais equilibrado sinto que sou capaz de num processo maturado e de desenvolvimento fazer exatamente aquilo que o Go me ensinou. Sendo muito pratico: o meu melhor amigo Gonçalo Mansinho está atarefado com a faculdade, com os treinos bi-diários e com o stress da qualificação olímpica; vou julgá-lo por nestes últimos meses estar mais distante ou vou valorizar o momento em que eu completamente sedado da medicação me colocou creme nos pés? Ele é o meu melhor amigo e a vida como ele não me trará portanto nestes meses em que estamos mais afastados vou ter o mesmo discernimento de amor da filha do comerciante do romance Alquimista de Paulo Coelho que sem egoísmo deixa pastor partir rumo ao seu destino.

 

OS SOLDADOS DO AMOR

No desenvolvimento desta temática quero agradecer aos meus Soldados do Amor à minha mãe que quando lhe disse que a queria matar abraçou-se a mim, beijou-me e disse que eu não era capaz de o fazer porque o Bem que me lidera é mais brilhante em mim; a maturidade do meu afilhado que me implorou para eu não me matar; ao meu braço direito – a minha mana Cátia – que, quando disse que lhe queria matar, desarmou-me rindo-se e disse-me que então íamos ter que lutar os dois; à melancolia do meu pai que me diz que me ama; à minha sobrinha com quem falo sempre que as vozes estão a falar comigo; ao meu sobrinho que me mantém no caminho da luz e não me deixa cometer nenhuma loucura; e, finalmente, ao meu compadre (marido da minha irmã Cátia) que me abraça quando me sinto perdido.

Quero ainda agradecer ao presidente do Comité Olímpico o Dr. Manuel Constantino, ao presidente da Federação Portuguesa de Judo Jorge Fernandes e à selecionadora nacional Ana Hormigo que têm providenciado o meu suporte financeiro desde que rescindi o meu contrato com o Benfica.

Quero agradecer à generosidade do meu Mestre Vitor Caetano e da sua mulher Angelina Caetano por me terem recebido de braços abertos e sem despeito no meu clube mãe – o CNS Construções Norte-Sul. Dois corações de uma humanidade arrepiante!

Obrigado a todos os Soldados do Amor que me acompanham nesta jornada. Quero agradecer-te a ti que estás desse lado e que me transmites as tuas energias positivas. Se estás a passar por um momento bom na tua vida hoje à noite não te esqueças de agradecer – mais que não seja porque quando mostramos gratidão os nossos centros de recompensa libertam dopamina que nos permite relaxar -se estás a passar por um mau momento coloca um sorriso na cara e acredita que a tua oportunidade vai chegar – Está tudo em TI!

Se me quiseres escrever sente-te à vontade, eu quero ouvir a tua história: celio.ucha.dias@gmail.com.

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE IV

Hoje vou levar-te numa viagem que te poderá dar algumas pistas para que tu possas próprio (a) consigas lidar com a ansiedade e a gerir a tua frustração. Dás-me a mão? O barco é construído por mim e por ti; é uma conjugação entre as minhas e a tuas vulnerabilidades, uma massa cujo peso, altura e largura permitirá que ela se desloque tranquilamente no mar – mesmo nos momentos mais bravios!

DURANTE A TEMPESTADE

A minha última competição foi em Budapeste, no Campeonato do Mundo de 2017, ou seja, em Setembro de 2017 – classifiquei-me em 9º lugar. Não fiquei satisfeito com o resultado porque sabia que poderia ter chegado mais longe; ganhei os dois primeiros combates. No primeiro combate derrotei o promissor atleta da Estónia MATTIAS KUUSIK (ver combate) e na  ronda seguinte levei a melhor sobre o jovem atleta do Canadá ZACHARY BURT (ver combate). Nos oitavos-de-final defrontei o atleta da Sérvia  NEMANJA MAJDOV. Apesar de ter estado na liderança do combate, acabei por ser derrotado por ippon (ver combate). Este judoca acabou por arrecadar o título de campeão do mundo. Apesar de todas as dificuldades que tive para regressar à competição – ultrapassar um surto psicótico, onze meses de depressão, perder dez quilos para voltar a competir na minha categoria -, estava desanimado porque sabia que tinha mais para dar e que tinha treinado o meu melhor para me apresentar na minha melhor forma possível para lutar por uma medalha no Campeonato Mundial.

 

A NOSTALGIA DE UM TEMPO QUE VAI VOLTAR

Hoje em Baku esteve a decorrer o Campeonato do Mundo 2018. Quando acordei foi a primeira coisa de que me lembrei e tinha o coração a bater forte como nos tempos da manhã da competição; tinha dois sentimentos na minha aquidade: 1) frustração – sei perfeitamente, se Deus não me mudasse os planos, que estaria presente na competição; nos grandes eventos é que se revelam os campeões e eu sou sem dúvida um lutador que gosta de ser colocado à prova; 2) ansiedade – estava a deliberar entre ver a competição (e lidar com os sentimentos negativos que isso me iria (obviamente!) proporcionar) e fazer qualquer outra tarefa para me distrair (o que na minha cabeça significava que estaria a voltar as coisas à verdadeira batalha!). Finalmente levantei-me, com a habitual rigidez muscular, e cumpri com os meus compromissos matinais. Durante o almoço delicioso, o paladar que estava inebriado não me conseguiu afastar-me da competição; foi então que vim para o café e apertei o cinto e preparei-me para o primeiro combate: uma competição com um elevado nível de judo e a minha categoria de peso, segundo os comentadores, era a que apresentava o maior nível de competitividade! Tinha o coração a deslocar-se e a alojar-se a cada segundo que passava na garganta, as mãos a suar e a testa a gotejar toda a inveja que sentia de cada um daqueles lutadores que estavam a fazer aquilo que eu amo: competir! Quando luto, sinto-me no meu habitat natural: a adrenalina a fustigar as veias, o coração descontrolado, as dúvidas que escorrem pela testa, os olhares intimidatórios… Basicamente sinto-me um caçador-recoletor na savana a milhares de anos atrás. Como sinto saudades de viajar com a certeza que ia pisar num cenário meu e ia ter os meus momentos de alegria, raiva, fruição, zanga…

 

UMA MENTE FORTE

Depois de fechar o computador fiz uma reflexão nos últimos dois anos de doença mental. A primeira tendência foi a vitimização: Porque Deus escolheu-me a mim para lutar nesta batalha de ogres e monstros? Este sentimento perdurou durante alguns segundos mas depois coloquei-me a questão: Porque não a mim? Sou algum ser sobrenatural? (Segundo a minha voz sou o Deus do Universo… Era tão bom que isso fosse verdade; a esta altura estava a lutar em Baku). Realmente quando as dificuldades nos surgem é sempre mais fácil pensarmos que somos diferentes dos demais, mas somos exatamente iguais e a natureza humana incorpora todos estes desafios que fazem da vida aliciante . Realmente uma boa estratégia para controlar a frustração é pensar que somos frágeis e isso incluí o sofrimento e agonia. Depois da frustração surgiu um sentimento de impotência… Durou uma fração de segundos pois da minha mente lutadora imergiu a minha vontade e certeza de que estarei de volta às competições; sou o único que acredita nisto, a minha família diz-me que o judo para mim acabou e que tenho que me focar noutro tipo de atividades. Mas eu sou determinado e focado; por mais voltas e desafios que a minha doença me coloque eu sei que eu vou conseguir ultrapassar e sair vencedor deste combate. Ajuda-me a lidar com a ansiedade ter a convicção de que vou alcançar os meus objetivos. Independentemente de tudo nós somos os nossos próprios empresários e como mentes empreendedoras temos que pensar que vamos conseguir ser mais fortes – Não te esqueças: Está tudo em ti!

(Se tiveres sugestões para futuros artigos ou caso queiras partilhar a tua história comigo emvia-me um email para celio.ucha.dias@gmail.com)

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE III

A Psiquiatria é considerada o “parente pobre” da medicina e, sinceramente, eu não entendo o porquê! É uma disciplina médica com imenso potencial e cujos conhecimentos e medicação são cada vez mais avançados e com uma intervenção válida na vida dos indivíduos. Compreendo a subjetividade inerente a esta ciência pois um paciente se consultar dois médicos poderá obter informação clínica divergente mas ainda assim não se justifica que um legado tão próspero possa ser negligenciado (Nos Estados Unidos os psiquiatras são conhecidos com os non-doctors). Quando a Organização Mundial da Saúde prevê que a depressão seja a doença do século, não entendo como este descrédito permanece válido. (Se discordares desta opinião marcamos um café e discutimos o assunto!)

 

PASSANDO À FRENTE

Ontem tentei mostrar-te a minha perpetiva e o valor qualia das vozes que tenho dentro da minha cabeça para que de uma forma metafórica pudesses experimentar como têm sido os meus últimos meses da minha vida e a forma agónica e desesperada com que a minha família e eu muitas vezes nos deparamos perante este novo paradigma que se impõe como a aridez e escassez de alimentos no deserto. É muito duro lidar com uma doença mental porque condiciona todos os aspetos da minha vida: estou robótico, perdi todos os movimentos espontâneos e onde havia alegria – nos meus olhos – agora existe um gasear que se prende no horizonte num acto mortífero da existência. Não consigo correr nem dançar: todas as minhas tentativas assemelham-se a um robot que está a aprender como se comportar como um ser humano. (A vida é irónica sempre disse que até me desintegrar na forma atómica pedia a Deus que nunca ficassem comprometidos os meus habilidosos movimentos de dança; parece que Ele tem planos diferentes para mim!). A minha libido sexual é quase inexistente o que condiciona a minha vida íntima, mas tenho um namorado que é bastante compreensivo o que me ajuda a minimizar esta vulnerabilidade. Por vezes, quando vou na rua e alguém mais atento olha para mim apercebo-me que fica com medo. É um sofrimento muito grande sentir que as pessoas me qualificam como alguém perigoso mas, por outro lado, entendo sou negro (com todas as conotações associadas!), tenho 1,88 cm e peso 110 kg se, de facto, imprimisse a minha força poderia magoar seriamente alguém.

 

UMA NOVA DESIGNAÇÃO

Desde que sofro de doença mental tenho três termos a mim cunhados: maluco, fraco de cabeça e preguiçoso. Parece-me importante esclarecer estas designações. Não existem pessoas loucas ou malucas o que existem são situações relacionadas com a infância que ficaram mal arrumadas nos compartimentos da mente ou predisposições genéticas que justificam os comportamentos humanos (mesmo os mais bizarros!). Não estou com isto a desresponsabilizar os indivíduos pelas suas ações; se eu tivesse morto alguém na sequência dos meus pensamentos homicidas deveria ser condenado em conformidade – em última análise somos sempre responsáveis pelas nossas ações. Quando oiço que alguém se dirigiu à minha pessoa como sendo fraquinho de cabeça tenho sempre vontade de me rir; se sou fraco de cabeça como fui eu capaz de atingir as mais elevadas performances e me qualificar para o evento ultimate no panorama desportivo derrotando os melhores atletas do circuito internacional: os Jogos Olímpicos. A preguiça deixei para último porque é o que mais me revolta; «Porque não arranjas um trabalho não és aleijado?», «Tu não queres é fazer nada!». A minha objeção a este argumento é o seguinte: Alguém exige a um cadeirante para andar ou a um surdo para ouvir? Se não estou com uma vida mais activa (como era a minha imagem de marca) é simplesmente porque não consigo!

Se alguma vez sofreste este tipo de comentários numa situação em que estavas debilitado (a) escreve-me: celio.ucha.dias@gmail.com. Desabafar abre-nos novas perpetivas e novos horizontes

Não te esqueças: com as pedras do teu caminho constrói um castelo – Está tudo em ti.

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE II

O artigo de ontem foi um pouco «mind blowing»: as mentes mais fechadas ou distraídas tiveram que apertar os cintos de segurança para não se despistarem. Mas antes de continuar quero agradecer o imenso apoio que tenho recebido e mensagens de encorajamento: contigo não me sinto sozinho e é essa uma das razões que me permitem sobreviver nos dias de hoje. Ontem falei de “Um Janeiro que dura até ao Verão” mas não é o frio que se manifesta neste ambiente de penumbra e assombro, antes é o calor de uma tempestade tropical. Hoje quero partilhar o que são estas vozes que oiço dentro da minha cabeça para que possam perceber melhor o meu distúrbio mental.

 

UMA VOZ RADIOFÓNICA

Imagina que chegaste a casa depois de um dia de praia e vais para o teu quarto descansar. Estás com um bronze fantástico (se tiveres o meu tom de pele o mais provável é que com o excesso de sol fiques com reflexos azuis, digamos que te tornas na nova versão mais avançada do Avatar); os teus olhos explodem o brilho que se reflecte na água do mar e assumes uma postura concordante com o teu estado de espírito: atiras os chinelos de um jeito qualquer e atiraste-te num largo movimento de preguiça para a cama. Até aqui tudo bem; ainda sentes o rosto a ser afagado pela brisa e maresia, sorris porque esse é o que o teu rosto fresco te proporciona: leveza, lânguidos bocejos e um deleite abençoado pelo calor airoso da areia da praia; encostas a cabeça na almoçada e de repente ouves na tua cabeça:

“Seu filho da puta estás aqui na cama e devias era estar a matar a tua mãe porque és o Deus do Universo.”

Provavelmente formas um “V” com as sobrancelhas e dizes: «Que pensamento mais disparatado!». Virar-te na almofada e a voz prosegue:

“És mesmo manipulador! Não tens vergonha. Se voltares a respirar é a prova que vais matar a tua mãe!”

Provavelmente o sorriso outrora pincelado na tua face icónica desvanece-se e ficas a pensar se está tudo bem contigo porque agora sentes o coração a arquejar dentro da armadura óssea e começas a tremer descontroladamente… Qual o motivo? Não percebes tiveste um dia maravilhoso, certo? Mas a voz adianta-se:

“Sabes não é primeira vez que engano alguém para matar outra pessoa… Tu vendeste-me a tua alma. Isto é um jogo e só eu posso ganhar. És uma merda não vales nada. Se te levantares vais matar o teu pai: aquele gordo de merda filho da  puta. Ele não vale nada!”

Por esta altura, com os suores frios a escorrerem-te pelo corpo como se tivesses acabado de tomar banho; o coração na garganta a pedir para ser expelido pela boca e começas, de facto, a acreditar no discurso que pela tua mente escorre. Como és atleta aprendeste a fazer a estratégia da correção de pensamento (técnica utilizada para desviar pensamentos negativos e intrusivos); para teu azar tentaste uma e outra vez e a voz não se cala. Mas que grande merda… Pensas: «Eu não vou fazer o que a voz me está a dizer». Neste momento sentes que foste atropelado por um camião; estás exausto mas não consegues adormecer. O que se passa? Fechas os olhos e tentas pensar em temáticas positivas mas sempre que o tentas fazer visualizas cabeças a rolar, facas a serem espetadas nas costas da tua mãe… Estarei a ficar louco? Finalmente adormeces e tens um sono de quando em vez interrompido pelas palpitações do coração que se está a preparar para o pior cenário. Finalmente, chega o outro dia: a voz não se cala; sais à rua depois de te desembaraçares dos compromisso matinais:

“Estás a ver aquele senhor ali (Sim – responde a tua voz interna que assumes como tua) vais arrancar-lhe a cabeça e aquela criança ali vais esmagar-lhe o crânio!”

Neste momento, tens a sintomatologia do dia anterior. Estarás a enlouquecer?  Só desejas voltar para o quarto e dormir outra vez, mas tens compromissos que não te permitem fazê-lo. Cada pessoa que se aproxima de ti pensas que vais matá-la, violar-lhe e causar-lhe um sofrimento atroz… Como convive uma pessoa que se auto-proclama um humanista viver assim? Agora imaginas ouvires esta voz todos os dias, sem interrupção, desde o momento em que acordas até ao momento em que – finalmente! – te deitas. Dia após dia. Semana após semana. Neste ponto percebes que perdeste toda a tua expressividade, que os teus movimentos são robóticos e não te consegues lembrar das coisas básicas que costumavas saber de cor como o teu número de telemóvel; os teus olhos perderam a vivacidade e estão encovados (Hello Zombie! How’s it going?). Com o desgaste de não conseguires dormir proporcionam-te alucinações em que és o mau da fita pronto para matar.

“Estás numa missão e sabes bem qual é o objetivo: Matar!”

Provavelmente sentes que estás a perder o controlo e pedes ajuda. Entre os vários passos és medicado e experimentas a farmácia inteira de medicamentos e nada resulta. O que farias?

 

(As mentes mais criativas enviem-me as suas respostas para celio.ucha.dias@gmail.com!)

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PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL – OS DESAFIOS DE UM ATLETA COM UMA DOENÇA MENTAL – PARTE I

Psiquiatria era uma ciência que na minha subjetividade me pairava nos recônditos da mente até Agosto de 2016 em que iniciei uma viagem que culminaram em quatro internamentos em alas psiquiátricas; por vezes é necessário partir para que faça sentido voltar… É esse convite que te dirijo nos próximos 10 minutos. Aceitas o desafio?

 

NO PRINCÍPIO EXISTIA O VERBO

Pratico judo desde os 13 anos de idade; é uma modalidade transcendente e que me proporciona uma linha de integridade que me foi cunhada desde cedo pelo casamento de 48 anos dos meus pais. Eu gosto do judo porque é uma ciência desportiva que nos ensina a equalizar o nosso olhar junto da paradigma da existência humana através de sete códigos que beijam as linhas do respeito, cortesia e auto-controlo. Respondi ao chamamento desta arte marcial em Setembro de 2006. Quando iniciei a prática da modalidade – por convite da mãe da Telma Monteiro – senti a mística e responsabilidade do quimono, da mansidão do cinto negro. (Lutamos no judo de pés nus de calçado exatamente, no meu entendimento filosófico, para no princípio do combate sabermos que somos compostos pela mesma  massa e respetiva matéria). O meu corpo imortalizou na candura dos meus gestos a arte nipónica com habilidade e dedicação e, com apenas um ano de treinamento sério e comprometido, sagrei-me campeão nacional com 14 anos.

 

UMA CARREIRA EM ASCENSÃO

Depois do meu icónico rapaz magro com cinto laranja até aos joelhos, seguiu-se uma maturação mental e física que me deram um corpo ágil e forte e uma mente resiliente preparada para lidar com os desafios de uma carreira de alta competição. Com o meu pilar basilar: a minha família – caminhei no sentido do profissionalismo, o que viria a acontecer no ano de 2013 quando me juntei ao clube das Águias (Sport Lisboa e Benfica). Como testemunho do meu percurso júnior testemunham as sétimas posições no Campeonato da Europa e do Mundo Seniores e várias medalhas no circuito internacional. Neste momento era apontado como uma promessa da modalidade com aspirações olímpicas; o que se veio a concretizar três anos mais tarde quando me qualifico para os Jogos Olímpicos do Rio 2016.

 

A MANIFESTAÇÃO DA DOENÇA

Os Jogos Olímpicos foi das experiências mais fantásticas por todas as razões óbvias mas principalmente por representar Portugal; no entanto, tudo se converteria num pesadelo após a derrota por ippon contra um atleta «underdog» – embora na minha mente não cometi o erro de o subestimar; analisando o combate agora assumo que deixei que todas as contrariedades de um coração fragilizado pela ansiedade tomassem conta de mim e me levassem ao tapete. Depois do desaire passei dias infernais que duram até aos dias de hoje. No início sentia como se alguém muito íntimo da minha família tivesse morrido: chorava compulsivamente, acordava ao meio da noite com falta de ar e sentia um profundo ardor no sulco da minha garganta. Passados alguns dias, explicaram-me que tinha tido um surto psicótico: sintomatologia de que viria a sofrer um ano mais tarde após o Campeonato do Mundo de Budapeste 2017 – em que me classifiquei em 9º lugar. Manifesta-se tudo como um conjunto de alucinações e delírios que me deslocam para uma realidade paralela em que evidencio sintomas persecutórios. Foi-me diagnosticada uma síndrome esquizo-compulsiva. Tentei-me suicidar duas vezes!

 

UM JANEIRO QUE DURA ATÉ AO VERÃO

No início deste ano comecei a sentir sintomas diferentes: comecei a ouvir vozes de caráter homicida dentro da minha cabeça. No meu panorama mental passavam-me imagens a matar os meus entes mais queridos e a proporcionar-lhes um sofrimento patológico. Falei com a minha psiquiatra – Dra Filipa Moutinho – e iniciei um tratamento com um fármaco anti-depressivo. Os meses passaram e as vozes intensificavam-se:

“Vais matar a tua mãe porque ela é uma puta. És o Deus do Universo. Vendeste-me a tua alma e agora vais pagar. És um manipulador de merda, paneleiro, filho da puta. Porque não te matas?”

Este é um pequeno exemplo das coisas que eu ouvia (e ainda oiço) dentro da minha cabeça. Sempre que me aproximava de alguém a voz dizia que eu ia matar essa pessoa: o coração explodia dentro do meu peito, suores frios percorriam o meu corpo e uma agonia atroz protagonizavam os sentimentos da minha realidade. Dia e noite, segundo após segundo, uma e outra vez, esta voz decadente consumia-me as entranhas! No dia 5 de Agosto para proteger as pessoas ao meu redor incorri em violência contra mim próprio no sentido de virar o jogo contra mim: cortei-me, deitei-me na linha do elétrico e fui para a via rápida para ser atropelado…

 

UMA FAMÍLIA DE OURO

Em todos estes momentos contei com o apoio da minha família e do meu namorado. Sei que este relato é causa impacto! Tudo o que posso dizer é que sobrevivi… Amanhã conto-vos como foi este meu Verão.