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TU ÉS MAIS FORTE

“Tu és mais forte e sei que no fim vais vencer; sim acredita num novo amanhecer”: é esta a música que toca na minha cabeça nos dias difíceis como o de hoje. Não tive um dia fácil pois percebi que a minha vida profissional vai ter mudanças com as quais eu não estava a contar. Foi um dia pesado e denso; um turbilhão de emoções que foram vividas de forma efervescente.

Questiono-me no final do meu dia sobre a quantidade de pessoas que, como eu, tiveram um dia difícil; para ser sincero: nem me apetecia sentar-me para vos escrever. Mas esta força que me direciona rumo aos meus sonhos é mais intensa, é maior. Por isso, é com alegria que deito as minhas palavras nesta cama elétrica que nos aproxima inexoravelmente.

São nos dias difíceis que nascem os verdadeiros verões. O Inverno e os seus mantos brancos existem para deixar as aromáticas flores desabrochar; a tempestade de gelo existe para que as rosas sorriam no seu vermelho sanguíneo. Os dias difíceis têm que ser os nossos momentos de força. Tu és mais forte e, no fim, vais vencer. Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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UMA TEMPESTADE COM PELE

Afundo-me no mar como os sedimentos de uma vida que pesa; uma existência sofrida que encontra o seu conforto na cálida textura das rochas vulcânicas. Tenho sofrido: não por culpa de um destino; antes por uma necessidade de expressão que não encontra terra firme para deixar o seu legado. Sofro porque as circunstâncias da vida se impõe a uma vontade maior.

Mas eu luto, não baixo os braços. Sou um guerreiro que nunca se cansa da sua labuta – tudo na vida tem uma razão para existir. O meu humor muda e encontra tantas faces como as da Lua – que na noite radia o céu com os seus cristais de esperança -, mas em todas as mudanças encontro um sorriso desenhado; que brilha com a sua brancura no negro petróleo.

Sou uma tempestade, uma tempestade com pele: não viro a cara a um desafio, não tenho medo de enfrentar os meus profundos fantasmas que se têm mostrado a nu nos dias que passam; não tenho medo de cair (o Homem cai para depois se levantar!). A depressão não sabe com quem se meteu. Acredita que nasceste para ser mais uma estrela no céu! Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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PEQUENOS PASSOS

A tristeza continua a tingir os meus dias prometendo a chuva ácida que é promessa num céu cheio de nuvens – cinzentas! Ela bate forte. Ela continua a manifestar-se num cenário em que os sonhos se encontram desvanecidos por um tempo, também ele cinzento. A depressão é viver numa cela em que as tintas das paredes são negras, da cor do petróleo.

Ela segue pela calada da noite e faz-se presente num tempo que, por ido, deixa saudades.  Um tempo em que brota uma falta de emoção generalizada; um tempo que não se dirige para porta nenhuma. A dor é a certeza: um flagelo que queima na garganta e irrompe pelo silêncio da madrugada para se fazer presente nas palavras não ditas, não expressas.

Fico numa casa em que a porta está escancarada mas em que o ar não passa (não existe vida!); o ar não circula e mancha os meus dias cheios de indecência por não se cumprir uma vontade maior. Os dias passam e com eles passam a vida que não volta. Será que viverei para sempre nesta condição? Liberta-te dos teus fantasmas. Está tudo em Ti!

CARTER B. REY

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VENCENDO A BATALHA

Esta semana não tem sido fácil. Estou a lidar com a sintomatologia pós surto psicótico. Tenho me sentido deprimido e sem vontade de fazer nada. As actividades que normalmente me dão prazer revelam-se um enfado e sou atirado para uma crise existencial em que me questiono sobre a razão da minha própria existência.

Os pensamentos negativos têm manchado os meus dias com a sua energia negra e deixam um cheiro nauseabundo nos recônditos da minha mente consciente. É fácil pensar no meu insucesso profissional; quando isto acontece, muitas vezes, não consigo superiorizar-me à negatividade que escorre vertiginosamente pelo meu entendimento – é difícil manter-me positivo!

O meu truque nestes dias mais cinzentos tem sido sair de casa. Hoje, por exemplo, não me apetecia sair da cama para concretizar os meus compromissos. A batalha foi dura mas consegui, por fim, impor a minha vontade e agora escrevo-vos de um café em Alvalade. Os dias não vão ser sempre fáceis, mas não permitiremos que nos assaltem o sorriso. Está tudo em Ti!

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A ENERGIA ELÉTRICA

Se ando nas nuvens não é culpa minha,

É uma necessidade que se manifesta.

Se nado no mar não é culpa minha,

É um incremento à minha essência;

No qual se cruza com a decência.

Se falo do ar são os átomos que criam

Raízes em mim – é inevitável existência.

Se falo da terra é porque as suas plantas

Se infundem em mim nesta cadência

É nesta amizade que floresce a inocência.

CARTER B. REY

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UMA OPORTUNIDADE CAÍDA DO CÉU

Caíste do céu numa manhã em que o dia se fazia frio,

Caíste do céu num dia em que nada esperava.

Trouxeste a esperança de uma oportunidade muito desejada,

Trouxeste a esperança de uma infância iluminada.

Esperei por ti toda a vida e nada me arredou o pé,

Esperei por ti com alento e desejo desafogado.

Contigo sonhei uma vida – uma eternidade.

Contigo sonhei e furei a efemeridade.

Caíste do céu numa tarde soalheira,

Caíste do céu numa noite estrelada.

Contigo sonhei numa semana de paixão.

Contigo sonhei com a frescura do coração.

CARTER B. REY


Fotógrafo: Tomás Monteiro

Assistente de Fotografia: Irís Liliana

Make-up: Ani Toledo

Cabelo: Rui Rocha

Styling: Carter B. Rey

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VOZES NA MINHA CABEÇA

Vocês perseguem-me na torrente da noite.

Dizem que tudo é possível. Nessa possibilidade

Conduzem-me à loucura e à fragilidade de existir.

A noite é sempre má conselheira.

Se a noite é das putas, dos poetas e dos loucos

Então eu, em mim, conjugo esses três cenários;

Numa só existência e fragilidade.

A puta celebra a Filosofia da liberdade humana.

O poeta rasga a novidade com a carícia de uma caneta.

O louco viaja no devaneio de uma dissertação sensível.

Eu: sou a composição de uma leitura de fragmentação.

Não sei o que escrevo. A única certeza que tenho é sobre a vossa existência.

Vocês confundem-me e atiram-me para o abismo onde existe um vórtice existencial –

Que me prende numa cela sem porta e numa parede branca e poderosa.

Deixo-me levar por esta proposta – Eu sou o Deus do Universo.

CARTER B. REY

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A PALAVRA DA SABEDORIA

A palavra é sagrada – deve ser respeitada.

A palavra é Conhecimento – deve ser enaltecida.

A palavra é Alegria – deve ser celebrada.

 

A palavra é um jogo de xadrez em que não existe nem rei nem rainha.

A palavra é um jogo de damas em que não existem peças a serem jogadas.

A palavra é o Cristo Redentor: é Amor, é Caridade, é Paixão.

 

A palavra foi trazida por um povo de muito longe que a desejou.

Comunicamos através da palavra. A palavra é ancestral.

O demagogo que a converte em dinheiro deve ser renegado,

Pois ofende uma tradição, ofende uma cultura.

 

Com fúria e fogo celebro os discursos que mudaram o rumo da História –

Que sem rumo caminha desafogada de mágoas.

Com fúria e fogo celebro os Homens e Mulheres que transformam a palavra,

Que a ressuscitam e a convertem em pontes de diálogo e comunicação.

 

CARTER B. REY

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GLÓRIA DA CIDADE NATAL

Necessito do meu bairro para existir: é aqui que está alocada a minha força. O meu bairro para mim é o princípio e o fim de todas as coisas. É o começo de um lindo sonho, o cemitério onde se destroem vidas. São estas construções assimétricas com defeitos de construção que me abraçam todos os dias e me ensinam a ser uma pessoa mais bondosa.

O bairro é onde está a minha essência e é de onde tudo nasceu; os meus sonhos construíram-se nestas ruas onde jazem corpos que, num fingimento de vida, se julgam na propriedade do dom de Deus. Muitas vezes, viver no bairro acarreta esta condição, a vida por vezes é demasiado áspera e austera para se conseguir vivê-la com um contentamento.

Mas para mim, não existe lugar no mundo onde me sinta mais completo, não existe lugar no mundo onde me sinta mais conectado com a realidade que me rodeia divido à simplicidade do povo que aqui se faz viver. O bairro é o meu estado de consciência porque me ensina a ser feliz. Qual é o local no planeta onde te encontras? Está tudo em Ti!

CARTER B REY


Fotógrafo: Tomás Monteiro

Assistente de Fotografia: Irís Liliana

Make-up: Ani Toledo

Cabelo: Rui Rocha

Styling: Carter B. Rey

Trend me too | Days of Light and Fights | Imagens do Ginásio

SUOR – O SINAL DE TRANSPARÊNCIA

Tenho saudades de fazer judo! Devido ao surto psicótico que tive em Setembro, estou afastado dos treinos para que o meu cérebro possa recuperar e restabelecer. O que tenho mais saudades é do cansaço que o treino proporciona: aquele cansaço de sentir o corpo contraído numa expressão física de dor; aquele cansaço em que as noites se tornam mais longas e pesadas porque os músculos não relaxam… aquele cansaço de quando estamos demasiados envolvidos ainda no treino que, apesar de ter acabado, se torna presente pelas endorfinas e adrenalina que fazem da corrente sanguínea pistas de fórmula 1, deixando-nos com uma excitação e energia capazes de correr até ao final do Universo, onde Deus está presente e preenche o vazio que aí se manifesta. Tenho saudades de tudo isto porque está naturalmente em mim – o meu corpo está impregnado (imersão total!) – de uma ambição competitiva que me compraz e me atira para uma melhor versão: o melhor de mim está para chegar! É nesta cama de esperança que os meus sonhos adormecem e se contagiam de energia positiva: o Universo – Deus todo poderoso – ouvirá os meus desejos.

“APRECIO O RITMO A QUE O MEU CORPO GOTEJA CADA LÁGRIMA DE ÁGUA QUE SE AMPLIA EM TODAS AS LATITUDES DO MEU HUMANISMO.”

Tenho saudades do suor que me escorria pelo corpo e me deixava molhado, ficava encharcado do meu trabalho. Tenho saudades do suor que me escorria pelo meu entendimento sensível, concebível, e que pintava no horizonte palpável – tangível – as minhas medalhas e os combates vencidos – as competições são ganhas no treino! Tenho saudades do suor que me percorria a carne sendo a evidência visível das perturbações e dúvidas que escorriam ansiosas no deleite da sua natureza aquosa. O suor é transparência, o suor é sinceridade. No Judo combatemos descalços uma vez que o calçado poderia trazer divisão entre os seus praticantes. Assim, estabelece-se um manifesto que fecunda a diversidade multicultural e fomenta a união entre os atletas de Judo. O suor participa com a mesma prevalência. Ele é a entrega e devoção; certeza de um compromisso, incerteza de um devaneio. O suor é a prova sensorial – a expressão de uma imposição física e biológica. Aprecio o ritmo a que o meu corpo goteja cada lágrima de água que se amplia em todas as latitudes da meu Humanismo. Suar é o trabalho de se existir. Como encaras o suor que te escorre pela fronte? Está tudo em ti!

CARTER B. REY


Fotógrafo: Fábio Caetano

Make-up: Ani Toledo

Styling: Carter B. Rey

Coordenação: Marta F. Cardoso

Carter B. Rey

GRANDEZA

Todos temos sonhos e aspirações; temos vontades e desejos ansiosos por se realizar. Somos iguais porque almejamos os mesmos objetivos. Temos uma ânsia que não se cala, uma voz que queima na garganta: temos sede de sucesso. E em que queremos ser bem-sucedidos? O ser humano quer ser bem-sucedido no Amor; queremos amar mais e melhor, queremos viver apaixonados pela vida. Quando falta o Amor, somos o pescador – cuja embarcação rasga a torrente da madrugada – que desesperadamente procura orientação perante a escuridão que se impõe. Quando o Amor é negligenciado comparece o Crime, quando o Amor não se faz presente, emerge a Violência; quando o Amor é ausente, irrompe o Pecado. Quando o Amor não se materializa, incrementa-se a Morte.

Eu sei o que é viver sem Amor. Quando no meu Entendimento se deixou de alimentar do Amor que dá Vida, tentei matar-me. Duas vezes. Desejei a Morte tanto quanto os meus pulmões anseiam por uma corrente de ar fresco. Tudo aconteceu durante os onze meses que estive deprimido – período em que senti um enorme desprezo pela dádiva e dom maiores de Deus: o Verbo que se faz presente na carne e que dá Fecundidade às partículas atómicas; esta natureza maior cuja profundidade, altura e comprimento habitam o Mistério que se faz presente pelo Espírito Santo. Tentei matar-me porque no meu coração não estava presente esta grandeza de Amor Maior.

“DEIXA A TUA AMBIÇÃO DE GRANDEZA SER O MAR DO TEU ESPÍRITO E O CÉU DA TUA ALMA – TUDO EM AZUL.”

O sucesso é o Amor. Sonhar é amar uma vida que se apropria e se compraz na novidade. Ser vencedor é amar! Cada vez que beijamos a face de alguém, é a nós mesmos que nos beijamos; quando sentimos um abraço apertado, o Universo exprime-se em nós através da energia – consequentemente, o nosso cérebro é inundado por dopamina que nos enamora as redes neurais. Ser-se grande é deixar que a vontade de Deus se cumpra em nós.

Deixa a tua ambição de Grandeza ser o mar do teu espírito e o céu da tua alma – tudo em azul. “Tal como as casas têm fachadas [nós temos] este modo de ser”. Todos nascemos para sermos Campeões do Amor. O Amor é a medida de todas as coisas. Aceitas o desafio?

CARTER B. REY

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SOU LOUCO E GOSTO

“Tu és estranho.”

Esta é a afirmação que é quase um segundo nome para um homem que sempre sentiu o mundo de forma exacerbada, apaixonada – eu. Desde cedo na minha vida que tenho dificuldade em fazer-me entender pelos outros, por isso, sempre fui tido como diferente: estranho. Esta forma como fui categorizado distanciou-me da realidade porque esta proporcionava-me um sofrimento extremo pela inexistência de compreensão. Esta atitude fez com que me segmentasse, com que ocultasse partes de mim que de forma alguma queria ver desnudadas.

Tudo o Universo é ação e reação; perante a negligência do meu eu o meu subconsciente enleou-me num mar de sargaço, fiquei preso em mim mesmo. Por mendigar o brilho no olhar dos outros, agredi-me violentamente; tinha vergonha da capacidade mais maravilhosa e extraordinária que Deus me entregou e confiou como talento: pensar. Sempre tive pudor de me afirmar socialmente como um ser que tem uma forte tendência para a racionalização porque a inteligência também pode ser uma agressora para os espíritos agrilhoados à realidade sensitiva.

“SER LOUCO É UM CAMINHO DE LIBERDADE: LIBERTA-TE!”

Mas agora tudo é diferente. Depois da depressão, depois de duas tentativas de suicídio, depois de dois surtos psicóticos (tendo sido o primeiro depois dos Jogos Olímpicos e o segundo acerca de dois meses); depois de tudo isto, do sofrimento, ficou uma tremenda capacidade de aceitação da pessoa que eu sou. Aceito a minha doença mental. Aceito a minha loucura!

Ser louco é um caminho de liberdade: liberta-te! Liberta-te dos estereótipos que apenas condenam; liberta-te das falsas verdade. Ser estranho é um privilégio de quem tem a coragem de observar o mundo por uma ótica alternativa. Ser estranho é um privilégio de alguém que ousa pensar e, por isso, é criticado gratuitamente.

CARTER B. REY

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SER OU NÃO SER: EIS A QUESTÃO…

“A educação e o ensino são as mais poderosas armas que podes usar para mudar o mundo.”

Nelson Mandela

Ser aluno universitário é para mim a concretização de um sonho. Foi um percurso sinuoso, com anos de paragens… Contudo, este ano abraço essa missão com responsabilidade e compromisso. Estou a estudar Psicologia no ISCTE e tem sido uma experiência fantástica. É numa universidade cheia de vida e diversidade cultural que começo a aprender os conceitos chave de uma disciplina que, através de modelos teóricos, pretende estudar o comportamento humano. Penso que a Psicologia contribui para uma melhoria dos mais diversos contextos e ambientes pois através de um melhor auto-conhecimento conseguimos uma interação mais eficiente e positiva com os pares que nos rodeiam.

Estou num momento da minha vida com várias alterações e, por isso, sinto necessidade de olhar para trás e ver tudo o que aconteceu: colocar em perspetiva. Relativamente ao meu percurso académico, lembro-me – com alguma nostalgia – do meu primeiro dia de aulas de sempre. O meu pai foi-me levar à escola no carro branco que tinha na altura e recordo-me de ficar parado nas escadas dentro do edifício cheio de medo. A minha escola primária chamava-se Escola Branca do Monte da Caparica e foi um dos momentos definitórios da minha vida pois foi aqui que comecei a construir o meu percurso. A exigência da minha mãe quanto às notas associada ao espírito de competição para ser um dos melhores alunos na classe fizeram com que encarasse sempre os estudos com seriedade. Parece que foi ainda ontem que era apenas um infante (cheio de sonhos e ambições); nesse tempo afirmava determinadamente que queria ser médico – mal sabia que a vida me iria trocar as voltas.

As mudanças são sempre positivas porque ensinam-nos sempre algo sobre nós próprios que não sabíamos e que estava mesmo ali à nossa espera – para ser descoberto. Sem estas pequenas alterações no nosso percurso, não seria possível crescermos e aprendermos que nada pode ser tomado ou dado por garantido. Muitas vezes quando damos a vida como uma comodidade acontece algo que nos puxa o tapete e aí somos lembrados da nossa pequenez – não controlamos nada verdadeiramente. É, por isso, que nos devemos esforçar mais e tentar mais forte porque em qualquer momento vamos ser lembrados de que não somos omnipotentes.


Chapéu & T-shirt: H&M


Contacto: geral@celiodias.pt

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UM ENCANTO DE JAPÃO

Com a clarividência que me proporciona o “Argonauta das sensações verdadeiras”, ao ritmo das minhas (quem me dera que fossem!) kizombas quentes, descubro a riqueza nipónica de uma vida de Japão. Assim vamos os três: o poeta, uma versão que não é a minha e África (com uns olhos de mel, tristes mas contentes, e uma certa e característica ginga na cintura)… Aliás, vamos os quatro! Ou melhor: vamos, contando bem, os cinco! (Lá escorreguei eu nos números e na exactidão!)

Adoro o cheio da densidade populacional e do katsu kare. E vocês comparsas?

“A beleza destes olhos meios rasgados enche-me a alma! Não, o que me enche a alma não é a beleza dos olhos rasgados… Aliás, estes olhos não são belos. Nem estes, nem nenhuns, nem coisa alguma! Comovem-me apenas estes olhos nipónicos que não são rasgados e muito menos nipónicos. Na verdade, estes olhos são nipónicos: para ti e para as mentes dementes; para mim: são olhos. Tal como as árvores são árvores, as flores são flores e os filósofos tristes e estúpidos. Desculpa: o vento que se levantou fez com que algum desse pó, que cega e racionaliza, entrasse para os olhos – os meus.”

(Silêncio, luzes e mais pessoas. Oiço um ligeiro mixoxo, uma testa franzida.)

“Sabes muito bem que esse vento não me bate! Não me cega, mas queima. Cada árvore, cada rio; os elefantes e os leões… Tudo geme e grita e rosna com o frio desta banda. A terra quer-se enterrar para fugir a este briol! Não estou a curtir esse mambo não…”

(Outro mixoxo, mais vento e frio. O poeta revira olhos devido à falta de eloquência; África lança-lhe um olhar de soslaio.)

E eu riu-me com todos os dentes da boca (mais tive!) E a fisiologia da não filosofia aquece-se e namora com a africanidade! Amo o poeta, vibro com África e finjo que não vejo com olhos doentes – encantado! Meu, nosso, teu – talvez não seja de ninguém: Japão.

O velho samurai resmunga e os olhos curiosos lêem e interpretam. (Vá, eu não conto ao Mestre para lhes poupar a leitura de mais um poema, claro e simples. Não, na verdade vou-lhe contar; com sorte, ele escreve dois poemas. Um para os olhos que lêem e outro para mim, advogando neles um luar que é só luar. E eu vou-me deliciar, ouvir mais música e descobrir mais Japão – em Tóquio).

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O AUTOCARRO DO POVO

Até quando o passado vai ser uma prisão? Até que ponto o facto de não controlarmos o que nos acontece é justificação para uma atitude de estagnação?

CORRER ATÉ MORRER

Depois de ter perdido a minha carteira de manhã (para começar o dia em beleza!) e ter corrido a maratona sob o comando do Professor Jorge, arrastei-me com o Martinho – amigo e judoca do Benfica – até à paragem de autocarros. Estou numa missão: poupar dinheiro! Nestas últimas semanas, tenho me esquecido que a minha bolsa de moedas tem fundo; consequentemente, deu-me um ataque quando repousei a testa sobre a mão e contei os meus cifrões (Claro que não fui ao hospital!) Portanto, iniciei o dia com uma grande motivação… Não fosse esta arrasada pela projeção das filas na loja do cidadão e pelo pesar nas pernas (Será que algum dia vou obrigar o Professor a cumprir estes treinos malucos? Babo-me só com a visualização!)

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Por fim, alcançámos o nosso destino: eu a rastejar ao ritmo da gargalhadas de troça do Martinho (Pimenta nos olhos dos outros não arde, não é o que dizem?) Sentei-me na paragem ao lado do único passageiro que, com um ar aborrecido, descansava as mãos sobre uma barriga experimente. Quando abre a boca, noto que lhe faltam alguns dentes: “Já estou à espera há 30 minutos!” – atira impacientemente; as nossas caras contraem-se em sorrisos concordantes. De facto, o “autocarro do povo” estava atrasado mas nós estávamos entretidos a discutir as vantagens de termos uma equipa que construiu uma estrutura independente – o tempo é sempre efémero, contraditória a sua percepção. Por entre carros a velocidades médias, finalmente surge a nossa boleia. “Estou a ver bastantes cabeças!” – constata o Martinho no tom irónico que lhe é habitual. Com a antecipação do mau cheiro e dos encontrões: uma gargalhada bem viva invade o ar.

SEJAM BEM-VINDOS

A particularidade deste autocarro é que um dos segmentos que realiza passa pela Amadora e, à hora que apanhámos o transporte, vem sempre lotado. Digo que é o “bairro em movimento” porque em todas as viagens que faço oiço sempre discussões entre os passageiros e o motorista, palavrões que marcam as conversas como vírgulas; jovens mães derretidas com os seus recém-nascidos ao colo e raparigas que choram o um amor não correspondido por causa de uma “cadela” que têm que pôr na ordem. Um cenário que me é bastante familiar – nostalgia e diversão. Uma das protagonistas da viagem foi uma rapariga atrevida com um vestuário que lhe destacava um peito cheio; uma voz esganiçada que, ao dispersar-se pela atmosfera, feria os ouvidos dos passageiros não só apenas por causa do timbre, mas sobretudo porque os enunciados que ditava eram uma extensão de neurónios cheios de ar e sinapses – claramente – interrompidas!

DE VOLTA AO BERÇO

Perante o conteúdo do discurso, ou pela sua falta, noto que começo a ficar com alguma tensão facial; de repente, sou atirado para a minha infância: rodeado por todo um cenário em que, em afirmações convictas, ouvia: “Eu sou mesmo do ghetto: quem gostar, gosta; quem não gostar não gosta!” – um mixoxo a acompanhar. Este tipo de declarações sempre me fizeram fervilhar sangue. Desde quando é que crescer no bairro é um fundamento para a má educação? Conheço um batalhão de pessoas, nomeadamente atletas com carreiras de destaque e cursos universitários concluídos, como são o caso das minhas amigas Telma Monteiro, Sandra Borges e Ana Monteiro, que são bem-formadas e cheias de valores e princípios – fontes de inspiração (Todos, elas e eu, crescemos no mesmo bairro, bebemos das mesmas origens e temos a mesma visão relativamente a este assunto!)

Nascer no bairro é apenas uma condição base, não é uma sentença. O que dizer do senhor americano que esteve 42 anos preso injustamente que quando abandona a prisão, depois de apurados os factos e ser-se destacado pelo seu comportamento, diz: “Só porque estamos numa prisão, não temos que agir como criminosos.” Quando nascemos uma vida é-nos entregue e com ela um pacote de liberdade (não ilimitado!) Dentro dessa embalagem, vem uma responsabilidade de ação e um dever de educação para que possamos contribuir para uma sociedade produtiva e mais justa. O Estado é responsável e fornece parte dessa educação; o aprofundamento desses conhecimentos é inteiramente da esfera pessoal. Se temos um telemóvel com Internet para postarmos lindas fotografias nas nossas redes sociais, porque não utilizar essa mesma habilidade para preencher e desenvolver a mente com conteúdos e aprender novas competências?

CULPA: MORTE E RENASCIMENTO

Como atleta da alta competição aprendi que a culpa das minhas derrotas é – sempre – minha! Não vale de nada aliviar o peso dos desaires culpando entidades externas. Acerca de uma das teorias acerca do conceito de livre-arbítrio vs determinismo, um filósofo descreve uma das posições como “um reles subterfúgio de palavras” (Professora Joana Rigato: pode aclarar-me a memória?) Na minha opinião, quando nos desculpamos com “a má sorte do destino” estamos apenas a refugiam-nos da culpa e negligenciar uma oportunidade de mudança. Qual é o custo de uma atitude de irresponsabilidade e procrastinação?

(Vou continuar a dançar ao som de África, tal como a rapariga de corpo esguio vai continuar a esvoaçar as tranças ao vento. A vida quer-se apaixonada e a vista de um ponto, só e apenas, a vista de um ponto.)

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UMA CRÍTICA À BEIRA-MAR

REPOUSO

Estou a mimar o meu corpo, atento aos apelos que ele me tem feito. E vocês: Conseguiram tirar o pé do acelerador e relaxar? (Lê o artigo de ontem para perceberes esta pergunta) Se sim, como se sentiram? Apesar de não saber nadar, o contacto com o mar sempre me deixa bastante calmo. Por isso, aceitei um convite de almoço e fui comer um hambúrguer a Carcavelos, à beira-mar (Sei que deveria ter optado por uma saladinha, mas desta vez estou perdoado: afinal de contas tenho que ouvir o meu corpo, certo?)

Quando nos sentámos para fazer o pedido, o Sol despediu-se deixando um frio abrasivo. Pedimos as bebidas e os pratos, agora embrulhados numas mantas de lã -uma recordação nostálgica de Inverno. Entre os detalhes da minha carreira desportiva e as aventuras do percurso musical do meu amigo, a conversa fluiu num ritmo alegre interrompido de quando em vez por um olhar perdido sobre a paisagem que tínhamos à disposição – ouvir o silêncio deixa a conversa aflorar, aprofundar-se em dinâmicas mais intimistas. Finalmente, chegam as bebidas: um sumo de morango e uma água naturais para mim (Estou agora perdoado?) Até à chegadas dos pratos: viajámos de Portugal a África, discutindo a riqueza de uma cultura de dança e calor. O Sol timidamente espreitou por entre as nuvens e, ao compasso de sabor e maresia, restabelecemos energias.

A CRÍTICA DO HAMBÚRGUER

Silenciados pela serenidade que o mar nos impôs, fomos devolvidos à realidade pela senhora magra e em pele de galinha que estava a fazer o atendimento às mesas:

– Gostou do hambúrguer? – perguntou com um largo sorriso.

– Nem por isso! – respondi sem qualquer qualquer emoção, seco.

– Algo não estava do seu agrado? – indagou-me, desta vez com um sorriso mais apreensivo.

– Não sei: simplesmente não gostei assim tanto – respondi a olhar-lhe fixamente nos olhos.

– Pronto, já percebi: não estava especialmente divinal – devolveu-me a senhora, retirando-se da mesa em gestos apressados.

Neste momento, quando olho para o Salvador, o meu amigo músico, ele está com os dedos a segurar as têmporas – um ar de desaprovação:

– O que foi? – perguntei-lhe sem hesitar.

– Acabaste de criticar o hambúrguer sem justificar a tua observação. Foste indelicado! – sentenciou.

– Apenas fui sincero. Mas pronto, está bem: corrijo da próxima vez – devolvi com um tom de desinteresse; ação contínua, olho para o ambiente envolvente.

O vento abranda a sua investida. Peço um café e uma fatia de bolo de chocolate (Juro, estou apenas a recuperar da fadiga muscular!) Sabem aquele bolo que vos preenche o paladar, até aos cinco sentidos, e vos faz salivar? Aquela cobertura branca de açúcar que acentua o sabor do chocolate quando se derrete na boca? Bem, a minha fatia estava assim – sensacional! Quando terminei, pagámos e viemos embora. No carro, sou empurrado pelas notas melódicas da música que estava a tocar para uma reflexão: “Porque critiquei o hambúrguer sem fundamento? Porque não elogiei a fatia de bolo que estava fantástica?” Absorvido pelos meus pensamentos, só fui interrompido por um telefonema da minha mãe; como sempre, não sabia ainda que tinha ido para o hospital – gargalhadas e um novo choro ao dinheiro perdido.


ELOGIOS E ABRAÇOS

Até determinado ponto da minha vida, sempre tive bastante dificuldade em expressar as minhas emoções de afeto. A primeira vez que disse à minha mãe que gostava imenso dela tinha 20 anos! Como é que é possível? No bairro não somos muito deste tipo de declarações. A minha amiga Sílvia – ginasta no Sporting Clube de Portugal – costuma dizer: “Vocês são tramados! Uma pessoa se diz que gosta de vocês, nem nos passam cartão. Agora, se vos maltrata, já ficam todos contentes!” (Estou a partir-me a rir só de me lembrar disto!) Claro que é uma situação exagerada, mas a verdade é que somos mais de mostrar os nossos afetos com ações. É assim: cada contexto tem as suas próprias dinâmicas! Talvez por esta situação, sinta embaraço quando se trata de elogiar pessoas que não tenha confiança, dar abraços ou lidar com elogios. (É habitual darem-me os parabéns por uma medalha ou pela minha prestação e eu ficar sem palavras ou mudar de assunto desajeitadamente…)

No judo temos uma grande preocupação com o peso; oiço mais criticas relativamente aos aumentos de volume corporal e às caras inchadas do que elogio aos corpos em forma quando estamos próximos de competições importantes. Em geral, penso que criticamos mais do que aquilo que elogiamos. Concordam comigo? Depois da minha reflexão, considero que esta situação se deve a três factores. Em primeiro lugar, temos uma tendência natural para reparar em padrões que não estejam de acordo com a “normalidade”: num grupo de pessoas com batas brancas, vão se destacar as que tiverem com uma indumentária diferente. Em segundo lugar, penso que a crítica nos concede poder: Quem não gosta de sentir livre? Os julgamentos dão-nos poder no sentido de expressarmos os nossos sentimentos. (Qual foi a minha reação perante a observação do Salvador? Ah, viva o 25 de Abril!) Por último, cada vez mais tenho consciência que não nos sentimos à vontade para elogiar as outras pessoas. Quantas vezes não pensamos que aquela pessoa está com um corte de cabelo mesmo porreiro e não somos capazes de lhe comunicar os nossos sentimentos? Ou: Nunca vos aconteceu fazerem algo bem feito e não receberem um reforço positivo? Como se sentiram? Talvez isto se verifique porque, devido às tecnologias, andamos a perder a nossa humanidade no sentido de conseguirmos expressar a nossa vulnerabilidade. Sim, quando elogiamos mostramos o nosso lado mais sensível, construímos uma ponte entre nós e os outros. Será que temos medo deste contacto?

REFORÇOS POSITIVOS

Elogiar é importante porque aumentamos a probabilidade de determinado comportamento se repetir. Se dizermos à nossa amiga Isabel como as saias lhe destacam as pernas elegantes, provavelmente ela irá optar mais vezes por esta peça de vestuário. O que aconteceria de elogiássemos mais os outros – o atendimento no café que é sempre agradável, o humor do nosso amigo que nos alegra sempre? Será que poderíamos contribuir para ambientes mais saudáveis e positivos?

Pese embora a importância dos incentivos, a crítica é essencial: pode conduzir a alteração ou correção de comportamentos indesejados, mantém de alguma forma a ordem social. Mas como criticar adequadamente? Já ouviram falar no método sanduíche? É uma formula bastante simples: um elogio, uma crítica e novamente um reforço. No meu caso poderia ter feito o seguinte comentário quando a senhora da esplanada me pediu a apreciação do hambúrguer:

“Obrigado pela pergunta. Penso que a carne do hambúrguer estava um pouco seca (Que foi a razão pela qual não apreciei tanto a refeição!) No entanto, a salada e o atendimento estão óptimos (Factos verdadeiros!)”

O que a senhora teria sentido se tivesse comentado o prato desta forma? Provavelmente, iria ter a minha apreciação mais em conta e, talvez, tentar melhorar o estado da carne numa próxima oportunidade. No final todos perdemos: o café, se aquele for o estado habitual do hambúrguer; e eu porque poderia ter contribuído positivamente para a alteração de um hábito.

E vocês: No vosso dia a dia qual é a vossa tendência – o elogio ou a crítica? Que tal neste final de tarde elogiar a boa-disposição constante dos nossos companheiros? Não percam esta oportunidade! Os motivos pelos quais criticamos mais frequentemente não são desculpas mas sim um fundamento que sustenta a mudança. Se tivermos que criticar: O que pode acontecer se usarmos o método sanduíche? É tudo uma questão de boa comunicação. Os erros são oportunidades, um call to action. O que motivou toda esta minha reflexão? Não tenham medo de construir pontes entre as pessoas, sejam elas mais próximas ou um pouco mais distantes. Uma felicidade global é feita com o contributo de todos. Vais aceitar o desafio?

(Obrigado a todos pelas mensagens de uma rápida recuperação. Desejo-vos um excelente início de semana!)