UM ENCANTO DE JAPÃO

02 Jun 2016
Pessoal
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UM ENCANTO DE JAPÃO

Com a clarividência que me proporciona o “Argonauta das sensações verdadeiras”, ao ritmo das minhas (quem me dera que fossem!) kizombas quentes, descubro a riqueza nipónica de uma vida de Japão. Assim vamos os três: o poeta, uma versão que não é a minha e África (com uns olhos de mel, tristes mas contentes, e uma certa e característica ginga na cintura)… Aliás, vamos os quatro! Ou melhor: vamos, contando bem, os cinco! (Lá escorreguei eu nos números e na exactidão!)

Adoro o cheio da densidade populacional e do katsu kare. E vocês comparsas?

“A beleza destes olhos meios rasgados enche-me a alma! Não, o que me enche a alma não é a beleza dos olhos rasgados… Aliás, estes olhos não são belos. Nem estes, nem nenhuns, nem coisa alguma! Comovem-me apenas estes olhos nipónicos que não são rasgados e muito menos nipónicos. Na verdade, estes olhos são nipónicos: para ti e para as mentes dementes; para mim: são olhos. Tal como as árvores são árvores, as flores são flores e os filósofos tristes e estúpidos. Desculpa: o vento que se levantou fez com que algum desse pó, que cega e racionaliza, entrasse para os olhos – os meus.”

(Silêncio, luzes e mais pessoas. Oiço um ligeiro mixoxo, uma testa franzida.)

“Sabes muito bem que esse vento não me bate! Não me cega, mas queima. Cada árvore, cada rio; os elefantes e os leões… Tudo geme e grita e rosna com o frio desta banda. A terra quer-se enterrar para fugir a este briol! Não estou a curtir esse mambo não…”

(Outro mixoxo, mais vento e frio. O poeta revira olhos devido à falta de eloquência; África lança-lhe um olhar de soslaio.)

E eu riu-me com todos os dentes da boca (mais tive!) E a fisiologia da não filosofia aquece-se e namora com a africanidade! Amo o poeta, vibro com África e finjo que não vejo com olhos doentes – encantado! Meu, nosso, teu – talvez não seja de ninguém: Japão.

O velho samurai resmunga e os olhos curiosos lêem e interpretam. (Vá, eu não conto ao Mestre para lhes poupar a leitura de mais um poema, claro e simples. Não, na verdade vou-lhe contar; com sorte, ele escreve dois poemas. Um para os olhos que lêem e outro para mim, advogando neles um luar que é só luar. E eu vou-me deliciar, ouvir mais música e descobrir mais Japão – em Tóquio).

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