UMA CRÍTICA À BEIRA-MAR

29 Mai 2016
Pessoal
critica

UMA CRÍTICA À BEIRA-MAR

REPOUSO

Estou a mimar o meu corpo, atento aos apelos que ele me tem feito. E vocês: Conseguiram tirar o pé do acelerador e relaxar? (Lê o artigo de ontem para perceberes esta pergunta) Se sim, como se sentiram? Apesar de não saber nadar, o contacto com o mar sempre me deixa bastante calmo. Por isso, aceitei um convite de almoço e fui comer um hambúrguer a Carcavelos, à beira-mar (Sei que deveria ter optado por uma saladinha, mas desta vez estou perdoado: afinal de contas tenho que ouvir o meu corpo, certo?)

Quando nos sentámos para fazer o pedido, o Sol despediu-se deixando um frio abrasivo. Pedimos as bebidas e os pratos, agora embrulhados numas mantas de lã -uma recordação nostálgica de Inverno. Entre os detalhes da minha carreira desportiva e as aventuras do percurso musical do meu amigo, a conversa fluiu num ritmo alegre interrompido de quando em vez por um olhar perdido sobre a paisagem que tínhamos à disposição – ouvir o silêncio deixa a conversa aflorar, aprofundar-se em dinâmicas mais intimistas. Finalmente, chegam as bebidas: um sumo de morango e uma água naturais para mim (Estou agora perdoado?) Até à chegadas dos pratos: viajámos de Portugal a África, discutindo a riqueza de uma cultura de dança e calor. O Sol timidamente espreitou por entre as nuvens e, ao compasso de sabor e maresia, restabelecemos energias.

A CRÍTICA DO HAMBÚRGUER

Silenciados pela serenidade que o mar nos impôs, fomos devolvidos à realidade pela senhora magra e em pele de galinha que estava a fazer o atendimento às mesas:

– Gostou do hambúrguer? – perguntou com um largo sorriso.

– Nem por isso! – respondi sem qualquer qualquer emoção, seco.

– Algo não estava do seu agrado? – indagou-me, desta vez com um sorriso mais apreensivo.

– Não sei: simplesmente não gostei assim tanto – respondi a olhar-lhe fixamente nos olhos.

– Pronto, já percebi: não estava especialmente divinal – devolveu-me a senhora, retirando-se da mesa em gestos apressados.

Neste momento, quando olho para o Salvador, o meu amigo músico, ele está com os dedos a segurar as têmporas – um ar de desaprovação:

– O que foi? – perguntei-lhe sem hesitar.

– Acabaste de criticar o hambúrguer sem justificar a tua observação. Foste indelicado! – sentenciou.

– Apenas fui sincero. Mas pronto, está bem: corrijo da próxima vez – devolvi com um tom de desinteresse; ação contínua, olho para o ambiente envolvente.

O vento abranda a sua investida. Peço um café e uma fatia de bolo de chocolate (Juro, estou apenas a recuperar da fadiga muscular!) Sabem aquele bolo que vos preenche o paladar, até aos cinco sentidos, e vos faz salivar? Aquela cobertura branca de açúcar que acentua o sabor do chocolate quando se derrete na boca? Bem, a minha fatia estava assim – sensacional! Quando terminei, pagámos e viemos embora. No carro, sou empurrado pelas notas melódicas da música que estava a tocar para uma reflexão: “Porque critiquei o hambúrguer sem fundamento? Porque não elogiei a fatia de bolo que estava fantástica?” Absorvido pelos meus pensamentos, só fui interrompido por um telefonema da minha mãe; como sempre, não sabia ainda que tinha ido para o hospital – gargalhadas e um novo choro ao dinheiro perdido.


ELOGIOS E ABRAÇOS

Até determinado ponto da minha vida, sempre tive bastante dificuldade em expressar as minhas emoções de afeto. A primeira vez que disse à minha mãe que gostava imenso dela tinha 20 anos! Como é que é possível? No bairro não somos muito deste tipo de declarações. A minha amiga Sílvia – ginasta no Sporting Clube de Portugal – costuma dizer: “Vocês são tramados! Uma pessoa se diz que gosta de vocês, nem nos passam cartão. Agora, se vos maltrata, já ficam todos contentes!” (Estou a partir-me a rir só de me lembrar disto!) Claro que é uma situação exagerada, mas a verdade é que somos mais de mostrar os nossos afetos com ações. É assim: cada contexto tem as suas próprias dinâmicas! Talvez por esta situação, sinta embaraço quando se trata de elogiar pessoas que não tenha confiança, dar abraços ou lidar com elogios. (É habitual darem-me os parabéns por uma medalha ou pela minha prestação e eu ficar sem palavras ou mudar de assunto desajeitadamente…)

No judo temos uma grande preocupação com o peso; oiço mais criticas relativamente aos aumentos de volume corporal e às caras inchadas do que elogio aos corpos em forma quando estamos próximos de competições importantes. Em geral, penso que criticamos mais do que aquilo que elogiamos. Concordam comigo? Depois da minha reflexão, considero que esta situação se deve a três factores. Em primeiro lugar, temos uma tendência natural para reparar em padrões que não estejam de acordo com a “normalidade”: num grupo de pessoas com batas brancas, vão se destacar as que tiverem com uma indumentária diferente. Em segundo lugar, penso que a crítica nos concede poder: Quem não gosta de sentir livre? Os julgamentos dão-nos poder no sentido de expressarmos os nossos sentimentos. (Qual foi a minha reação perante a observação do Salvador? Ah, viva o 25 de Abril!) Por último, cada vez mais tenho consciência que não nos sentimos à vontade para elogiar as outras pessoas. Quantas vezes não pensamos que aquela pessoa está com um corte de cabelo mesmo porreiro e não somos capazes de lhe comunicar os nossos sentimentos? Ou: Nunca vos aconteceu fazerem algo bem feito e não receberem um reforço positivo? Como se sentiram? Talvez isto se verifique porque, devido às tecnologias, andamos a perder a nossa humanidade no sentido de conseguirmos expressar a nossa vulnerabilidade. Sim, quando elogiamos mostramos o nosso lado mais sensível, construímos uma ponte entre nós e os outros. Será que temos medo deste contacto?

REFORÇOS POSITIVOS

Elogiar é importante porque aumentamos a probabilidade de determinado comportamento se repetir. Se dizermos à nossa amiga Isabel como as saias lhe destacam as pernas elegantes, provavelmente ela irá optar mais vezes por esta peça de vestuário. O que aconteceria de elogiássemos mais os outros – o atendimento no café que é sempre agradável, o humor do nosso amigo que nos alegra sempre? Será que poderíamos contribuir para ambientes mais saudáveis e positivos?

Pese embora a importância dos incentivos, a crítica é essencial: pode conduzir a alteração ou correção de comportamentos indesejados, mantém de alguma forma a ordem social. Mas como criticar adequadamente? Já ouviram falar no método sanduíche? É uma formula bastante simples: um elogio, uma crítica e novamente um reforço. No meu caso poderia ter feito o seguinte comentário quando a senhora da esplanada me pediu a apreciação do hambúrguer:

“Obrigado pela pergunta. Penso que a carne do hambúrguer estava um pouco seca (Que foi a razão pela qual não apreciei tanto a refeição!) No entanto, a salada e o atendimento estão óptimos (Factos verdadeiros!)”

O que a senhora teria sentido se tivesse comentado o prato desta forma? Provavelmente, iria ter a minha apreciação mais em conta e, talvez, tentar melhorar o estado da carne numa próxima oportunidade. No final todos perdemos: o café, se aquele for o estado habitual do hambúrguer; e eu porque poderia ter contribuído positivamente para a alteração de um hábito.

E vocês: No vosso dia a dia qual é a vossa tendência – o elogio ou a crítica? Que tal neste final de tarde elogiar a boa-disposição constante dos nossos companheiros? Não percam esta oportunidade! Os motivos pelos quais criticamos mais frequentemente não são desculpas mas sim um fundamento que sustenta a mudança. Se tivermos que criticar: O que pode acontecer se usarmos o método sanduíche? É tudo uma questão de boa comunicação. Os erros são oportunidades, um call to action. O que motivou toda esta minha reflexão? Não tenham medo de construir pontes entre as pessoas, sejam elas mais próximas ou um pouco mais distantes. Uma felicidade global é feita com o contributo de todos. Vais aceitar o desafio?

(Obrigado a todos pelas mensagens de uma rápida recuperação. Desejo-vos um excelente início de semana!)

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